A Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica da Câmara Municipal de São Paulo realizou Audiência Pública, nesta quinta-feira (26/3), para debater as obras do Túnel Sena Madureira, na região da Vila Mariana, zona sul da capital paulista. Na reunião, também foram apresentados o estudo de alternativas viárias ao túnel e a economicidade na administração pública.
A audiência atendeu ao requerimento da vereadora Renata Falzoni (PSB). O objetivo foi promover o diálogo entre o Poder Público, especialistas, comerciantes, moradores e interessados sobre o andamento da obra e as alternativas para o trânsito na região.
“A solução é você promover a caminhabilidade e pedalar, que é a mobilidade ativa, combinada com o transporte coletivo. O túnel vai na contramão total”, disse Falzoni.
De acordo com a parlamentar, há uma consultoria feita com engenheiros que trabalhavam na CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Segundo a vereadora, o estudo mostra que “com R$ 1 milhão dá para resolver, inclusive com vantagens que o túnel não traria, porque tem o efeito negativo de corte de árvore, desalojamento de famílias. Em pleno século XXI, você não pode fazer mais estrutura para automóveis, que é completamente insustentável”.
Renata Falzoni aproveitou a oportunidade para reforçar as preocupações com o custo e o impacto do projeto. “É uma obra que está orçada em R$ 622 milhões. Existe uma premissa de que você investe em uma infraestrutura, você atrai usuários. Coloque calçada, porque pedestres virão. Coloque ruas, viadutos, pontes e túneis e os carros virão. E, com isso, mais congestionamento”.
O vereador Nabil Bonduki (PT), presidente da Comissão de Trânsito, também se pronunciou sobre o tema. O parlamentar lembrou os desafios enfrentados pela cidade em relação ao tráfego e à mobilidade urbana. “Temos que ter todas frentes para parar essa obra, para garantir que isso seja uma conquista para a Vila Mariana e para a região da Sena Madureira, mas que possa ser uma conquista para a cidade para que a gente interrompa (a obra)”.
Especialista em trânsito, Alexandre Zum Winkel apresentou a análise urbana e operacional citada por Falzoni. Ele explicou que a área de pesquisa envolveu a Rua Domingos de Morais, a Avenida Sena Madureira e a Rua Maurício Francisco Klabin – vias entre os metrôs Vila Mariana e Santa Cruz. Winkel explicou que foram coletados dados de fluxo veicular com imagens, com contagem feitas por filmagens, no pico da manhã, entre 8h e 9h, e no pico da tarde, das 17h às 18h.
Alexandre afirmou que a proposta aprimora a operação dos semáforos, inversão de sentido de circulação de algumas vias, alteração geométrica de saídas e acessos. Além disso, o especialista destacou que a iniciativa traz segurança na travessia de pedestres. Ele ainda descreveu os gastos estimados em R$ 1 milhão.
“Nós fizemos uma estimativa de custos, onde a obra civil, que é abertura de canteiros, acertar a acessibilidade, pequenas geometrias para acertar os raios de giro seriam em torno de R$ 30 mil, sinalização horizontal, vertical e orientação ficou em R$ 200 mil, e a sinalização semafórica em R$ 500 mil. Uma estimativa bem próxima da realidade, em R$ 1 milhão”, afirmou Zum Winkel.
Contestação da obra
Além de Renata Falzoni e Nabil Bonduki, a construção do túnel está sendo contestada por outros dois parlamentares: Marina Bragante (REDE) e Professor Toninho Vespoli (PSOL). Os vereadores acionaram o Ministério Público para barrar o avanço da obra.
O processo de licitação está em andamento com a proposta financeira de R$ 622 milhões do consórcio Expresso Sena Madureira-Klabin – único participante da nova licitação. A ação do MP inclui duas representações. Uma delas questiona a viabilidade do estudo ambiental que embasa o projeto; já a outra apresenta alternativas viárias com custo estimado em R$ 1 milhão – a mesma que foi exposta na audiência.
“Nós pagamos em torno de R$ 40 mil por esse estudo, que fez uma análise do estudo técnico da Prefeitura, mostrando que tem vários furos e que não tem estudo suficiente que comprova várias questões que a Prefeitura está afirmando. A alternativa é mexer no fluxo local, em semáforos e mudando a mão de algumas vias. Daria para ter a mesma melhoria ou até melhor do que o túnel”, disse Vespoli.
“A nossa intenção é melhorar o diálogo mesmo, porque em todas as audiências públicas que vamos, o público sempre se manifesta contra. Então, estamos tentando descobrir como é que fazemos para que a cidade entenda que o túnel não é bem-vindo para a população, não faz o que ele se propõe a fazer e custa muito caro“, completou Marina Bragante.
Participação popular
A audiência abriu espaço para a participação da população. Moradores e comerciantes da região manifestaram preocupações com os impactos das obras no dia a dia da cidade.
Eliana Barcelos, integrante do Movimento Não ao Túnel, relatou que há dificuldade em dialogar com os representantes do Poder Executivo. Ela disse que não houve reuniões com a Prefeitura e que ninguém da administração municipal compareceu em audiências públicas. “Desde então, a comunidade está tentando entender o tamanho dessa interferência e desse orçamento para o túnel. Por causa de um farol, serão gastos R$ 622 milhões”.
O conselheiro participativo municipal de Vila Mariana – zona sul – e liderança da comunidade de Souza Ramos, Eduardo Canejo, é contra o túnel. “Não há motivo algum para ser favorável. Não resolve o que se propõe, não é verdadeiro com o que se propõe e não tem cabimento gastar milhões para algo que não vai ser solucionado”.
A presidente da Associação de Moradores da Vila Mariana, Denise Delfim, comentou que é preciso ter atenção entre as estações Vila Mariana e Ana Rosa, porque no local existe a microbacia do Sapateiro. “Estão impermeabilizando o solo e a água não tem para onde ir. Quando construírem esse túnel vai virar um piscinão. Percebemos nas postagem do túnel a quantidade de água que está ali. Eu acho uma irresponsabilidade fazer um trabalho desse sem um estudo sério”.
Também contrário às obras do túnel, o arquiteto e urbanista Lucian de Paula disse: “Vimos aqui demonstrado que o que era uma obra licitada por R$ 622 milhões poderia facilmente ser resolvida por intervenções pontuais de R$ 1 milhão. E isso traz a pergunta: por que a Prefeitura está fazendo algo 622 vezes mais caro do que a solução mais eficaz?”.
A vereadora Rute Costa (PL) também participou da reunião. A íntegra da Audiência Pública da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica sobre as obras do Túnel Sena Madureira, pode ser conferida clicando aqui.
