Bailes funk das periferias de São Paulo são debatidos em comissão

Luiz França / CMSP

Audiência pública da Comissão de Direitos da Criança e Adolescente (12/12)

DANIEL MONTEIRO
DA REDAÇÃO   

Vereadores, representantes do Executivo e da sociedade civil discutiram, nesta quinta-feira (12/12), na Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude, os bailes funk dos bairros periféricos da cidade de São Paulo. Também foram debatidas propostas de políticas públicas de lazer e entretenimento para a população jovem dessas regiões.

A discussão é consequência da morte de nove jovens, no início de dezembro, após ação policial no Baile da Dz7, famoso pancadão, como também são chamados os bailes funk, da favela de Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo, reunindo em média entre 3 mil e 5 mil pessoas. Outras 12 pessoas ficaram feridas no incidente.

Segundo Renata Alves, uma das coordenadoras da Associação de Mulheres de Paraisópolis, o primeiro passo para a construção de um ambiente saudável de lazer e entretenimento na periferia é o diálogo. “Acho que o início de tudo é escutar os jovens. As pessoas têm mania de não ouvir o que o jovem pensa, o que o jovem quer para ele. As pessoas impõem isso. E não têm como falar de funk e não falar de jovem”, disse Renata.

Outro ponto levantado pela representante da Associação de Mulheres de Paraisópolis é a atribuição de responsabilidades aos envolvidos nos pancadões. “Por que esses nove jovens que morreram, por que tanta gente vem para Paraisópolis? Porque o bairro abraça as pessoas por causa do funk. E há grandes marcas que vendem muito. São 12 mil comércios na comunidade que provam isso”, reforçou Renata, que questionou os projetos promovidos no bairro para os jovens. “É preciso que elas [as marcas] façam a parte delas”, concluiu.

Presente ao debate, o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carlos Alberto de Souza Júnior, também destacou a necessidade de mais investimentos públicos na periferia. “A solução, no momento em que a gente discute o orçamento da cidade, é pensar investimentos em política pública de fato eficazes para as periferias”, disse Souza Júnior. Segundo ele, é preciso pensar nos investimentos ali a partir do diálogo com o poder público.

Para Rubia Mara, representante da Evidência Paralella, empresa de comunicação que presta serviços a afroempreendedores voltados ao mercado funk da periferia, é preciso haver mais valorização das periferias. “Paraisópolis, por exemplo, tem que ser vista com outros olhos, por sua relevância, uma vez que o que acontece na comunidade reflete em outros lugares. Ela tem que ser notada e entendida como patrimônio imaterial, porque não tem só o funk lá”, disse Rubia.

Cultura local

Participante da discussão, o coordenador de centros culturais e teatros da Secretaria Municipal de Cultura, Pedro Granato, defendeu a proteção ao funk, para ele uma manifestação autêntica e vibrante dos jovens. “O que acontece é que uma discriminação social e racial acaba gerando uma criminalização de festas e acontecimentos periféricos, muitas vezes, vindos da cultura negra, enquanto você permite coisas muito piores em festas de elite”, disse Granato. “Música é cultura e cultura você não trata com repressão, você trata com incentivo, com estrutura, com espaço para as pessoas se apresentarem, com liberdade de expressão”, enfatizou.

Na avaliação da vereadora Soninha Francine (CIDADANIA), a discussão trouxe importantes contribuições para tentar resolver o problema. “É muito importante ver que tem coisas que são vistas como problema, mas só porque são ligadas à periferia e ao funk, enquanto em outras ocasiões não são consideradas um problema social grave, uma ameaça”, disse Soninha. “E que há coisas problemáticas, sim, que a gente pode lidar com elas de uma maneira a criar formas de lazer e de prazer mais saudáveis”, sugeriu a vereadora.

Segundo Soninha, o poder público tem capacidade de promover ações capazes de impedir novas tragédias. “É desafiador, é complexo, mas é possível o poder público contribuir para que os adolescentes tenham um espaço para sua diversão, para seus impulsos até de transgressão, em que não se coloquem em perigo, inclusive, pela ação do próprio Estado”, afirmou. “Afinal de contas, nove meninos e meninas foram assassinados porque a gente, poder público, desencadeou uma ação absurda. Não foi o baile funk que matou os meninos”, finalizou Soninha.

Também estiveram presentes à reunião da Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude o ex-secretário municipal de Promoção e Igualdade Racial, Antonio Carlos Pinto; o representante da Secretaria Municipal de Cultura, Leo Medeiro; e a assessora de gabinete da vereadora Patrícia Bezerra (PSDB), Elizete Miranda.

Deixe uma resposta:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também