Proposta de intervenção na antiga Serraria do Parque Ibirapuera é debatida em Audiência Pública

Por: HELOISE HAMADA
DA REDAÇÃO

19 de março de 2026 - 21:23
Imagem de reunião em mesa oval, com nove pessoas sentadas e outras em pé ao fundo. Papéis, copos e garrafas sobre a mesa. Sala iluminada, paredes brancas com quadros em preto e branco. Ambiente formal e bem organizado.Richard Lourenço / REDE CÂMARA SP

A Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica da Câmara Municipal de São Paulo realizou Audiência Pública, nesta quinta-feira (19/3), para debater a proposta de intervenção na antiga Serraria do Parque Ibirapuera. A discussão atende ao pedido da vereadora Renata Falzoni (PSB).

De acordo com a parlamentar, o espaço está localizado em uma área tombada sujeita à apreciação do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Segundo ainda Falzoni, a proposta de utilização da área é de natureza econômica.

“É uma construção histórica, de 1930. Era uma antiga oficina de bondes, era uma serraria também. Todo aquele espaço foi remodelado pelo Burle Marx e tem a sua natureza extremamente bem preservada, de contemplação, de lazer, de calma e é público. E tudo que é público não combina com o que chamamos de consumo, com o comércio. Parque não é shopping”, afirmou Renata Falzoni.

A parlamentar destacou que debater o tema junto com a população é essencial. “Vamos ouvir as demandas para trazer um parecer positivo no sentido de preservar o que nós temos e não virar um comércio”.

O presidente da Comissão de Trânsito, vereador Nabil Bonduki (PT), contou que o assunto foi debatido no Conpresp, mas que trazer a discussão para Câmara Municipal amplia o debate. “A minha opinião é que do jeito que esse projeto foi apresentado não deve ser aprovado, porque não respeita as diretrizes de preservação nem a maneira como, hoje, aquele espaço está sendo utilizado. É um espaço gratuito, livre, aberto. Se o projeto for levado adiante, vai virar um espaço fechado e com cobrança de taxa”.

Bonduki lembrou que a Serraria está junto com a Praça Burle Marx – anexada a um jardim – principal projeto do paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994) na capital paulista. “A Serraria faz parte da ambientação do espaço. Seria uma lástima ver esse espaço, de certa maneira, dividido, seccionado pela construção que querem fazer no local”, enfatizou.

A vereadora Marina Bragante (REDE) também participou da audiência. Ela falou que também recebeu reclamações sobre o projeto. “Muitas pessoas estão incomodadas e preocupadas, sentindo falta da função do Ibirapuera, função ambiental, social. É um parque em uma cidade intensa como a nossa, precisa ter um espaço de contemplação e é assim que a Serraria e a Praça Burle Marx são identificadas pela população, um espaço de calmaria. Por isso, precisamos entender se esse projeto tem espaço no Ibirapuera”.

Projeto da Serraria

A iniciativa desenvolvida para a Serraria foi apresentada por Samuel Lloyd, diretor da Urbia Gestão de Parques de São Paulo, gestora do Parque Ibirapuera. Ele explicou que a proposta vem sendo debatida com os órgãos de tombamento e com o conselho gestor do parque há mais de cinco anos. Agora, está na fase de aprovação do projeto modificativo em relação ao que foi contemplado em 2022.

“Esse projeto traz um mezanino e uma área para uso de atividades esportivas, bem-estar, como ioga, meditação, musculação para fomento de atividades físicas em um espaço que hoje ainda é subutilizado dentro do Parque Ibirapuera. Essa previsão já está aprovada pelos órgãos de tombamento desde a aprovação do plano de intervenção em 2022”, afirmou Lloyd.

Samuel ainda frisou que a audiência no Legislativo paulistano é fundamental, já que a empresa trabalha para servir a população. “Estamos à serviço da Prefeitura de São Paulo, somos uma concessionária de serviço público. As pessoas precisam participar desses debates, porque muitas acham que esse projeto é para ser um shopping, um centro comercial, mas basta abrir o projeto para ver que não tem nenhuma menção a atividades relacionadas a comércio de alimentos e bebidas, ou lojas, por exemplo. Queremos usar a vocação daquela área, que é de bem-estar e atividade física e fomentar que as pessoas tenham mais espaço, inclusive em dias de chuva”.

Importância da Serraria

A arquiteta Cássia Regina Mariano ressaltou a importância histórica do Ibirapuera e lembrou que a Serraria está lá desde antes da implantação efetiva do parque. Ela reforçou que o espaço está na zona ambiental. “O Plano Diretor Estratégico não permite usos nesses locais que sejam fixos, nenhum equipamento pode ser fechado. Eu peço nesta audiência que, por favor, vamos manter o projeto de Roberto Burle Marx. Isso vai descaracterizar a obra do paisagista mais importante desse país”.

O membro do Fórum Verde Permanente e conselheiro do Parque Ibirapuera desde 2019, Cláudio Eugênio Neszlinger, comentou que a Serraria é o último espaço de contemplação da natureza no local. “É um espaço para práticas que exigem uma paz total, silêncio, contemplação. Nós estamos falando de um local para convívio social, para convívio com a família, para ir sozinho pensar na vida, ver passarinho e ver verde. Não esperamos qualquer atividade que traga barulho, limitando o espaço e, principalmente, qualquer coisa paga”.

Francisco Brito, integrante da Associação da Vila Marina, relatou que frequenta o parque há anos. Ele criticou as intervenções feitas no parque desde a concessão à Urbia. “Ela quer destruir a paz no Parque Ibirapuera, transformando um patrimônio histórico em mais um espaço de uso publicitário e comercial. O jardim do Burle Marx vai ser ocultado pelas paredes que esse projeto quer subir na Serraria”.

Confira a Audiência Pública na íntegra aqui.

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