Morto na Ditadura, Santo Dias ainda é referência para operários

Luiz França

ENTERRO_DO_SANTO_DIAS-27-03-2014-Arquivo_particular_Luiz_Frana-01658-72CAPAApós o deslocamento das tropas de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro e aproveitando-se da ausência do presidente da República, João Goulart na capital fluminense, os militares tomaram o poder no dia 1º de abril de 1964 e destituíram Jango do cargo. O jovem Santo Dias da Silva, na época com 20 anos, trabalhava como motorista de uma metalúrgica em São Paulo. Mal sabia ele que 16 anos mais tarde seria uma das vítimas do regime repressor que acabara de ser instaurado.

 Era 30 de outubro de 1979 e Silva havia saído de casa para participar de uma reunião sobre os rumos da greve dos metalúrgicos. Ele era um dos líderes, lembra a amiga Edna de Oliveira. Fomos fazer uma mobilização em outra fábrica, mas acabaram pedindo a nossa ajuda na Sylvânia. Ele foi para lá e eu fiquei, recorda. No meio da paralisação a polícia chegou e prendeu alguns dos manifestantes, gerando tensão. De repente, um tiro disparado pelo policial militar Herculano Leonel atravessou as costas de Santo Dias, que morreu na hora.

O filho do operário, Santo Dias da Silva Filho, narra o momento em que soube do falecimento do pai dentro do colégio, quando tinha 13 anos. Vieram até minha sala e pediram para eu ir até a secretaria. Lá estava o padre Luigi. Ele disse que meu pai tinha sofrido um acidente e precisava ir embora. Minha irmã questionou se estava tudo bem. Mas eu disse a ela que nosso pai tinha morrido. Diante do momento que o país vivia, porque pediriam para sair da escola por um acidente com meu pai?, lembra.

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Segundo Dias Filho, foi no IML onde ele sentiu o peso da repressão. Estava cheio de militares e a nossa família foi xingada de tudo quanto era nome. Ouvi um deles falar que baderneiro tinha que morrer mesmo. Quando dom Paulo Evaristo Arns chegou, a conversa mudou completamente. Os militares não sabiam da importância do meu pai para a Igreja.

Conquistas para a comunidade

A militância de Santo Dias não se resumia somente à luta por melhores condições trabalhistas nas fábricas. Católico praticante, ele fazia parte das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos movimentos de bairro. Na Vila Remo, onde residia, obteve conquistas para a comunidade como luz elétrica, moradias, ruas asfaltadas, água encanada, escolas. Ele agia ainda junto aos trabalhadores, sindicalizando-os para que brigassem por seus direitos.

Para Luigi Giuliani, Santo Dias tinha uma fé engajada. Giuliani conheceu o ex-operário nos trabalhos que realizavam nas igrejas se tornaram grandes amigos. A gente fazia para o povo e com o povo.

Referência em militância social durante a Ditadura Militar, Santo Dias não era membro de partido político. Segundo o filho, não foi por falta de convites. Ele era um político informal que gostava das coisas mais simples, da vida como um arroz e feijão e de tomar a cachaça que guardava debaixo da pia da cozinha. O ex-operário é lembrado até hoje com orgulho e carinho por quem conviveu com ele. Para o companheiro de lutas Fernando Veloso, Santo Dias foi um cara humano; para Giuliani, uma pessoa autêntica; e para Dias Filho, um mártir. (Rafael Carneiro da Cunha)

Audiência Pública

Comissão da Verdade homenageia Santos Dias e relembra golpe militar

 (31/3/2014 – 13h15)

 

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