CPI da Íris: Em 2025, depoimentos marcaram o trabalho da comissão que investiga coleta de dados de munícipes

Por: VITÓRIA SANTIAGO
DA REDAÇÃO

26 de janeiro de 2026 - 12:00
Foto de sessão na Câmara Municipal de São Paulo; três pessoas sentadas à mesa central, microfones e placas de identificação. Fundo de mármore claro com nomes gravados; ambiente iluminado, tom formal e institucional.Douglas Ferreira / REDE CÂMARA SP

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Íris, instalada em maio de 2025, foi criada para apurar a atuação da empresa Tools for Humanity. Por meio do projeto World ID, ela oferecia recompensas financeiras para realizar o escaneamento da íris de cidadãos paulistanos. O colegiado encerrou o ano passado com 18 reuniões e 104 ofícios expedidos.

Proposta pela vereadora Janaina Paschoal (PP), a CPI investiga possível violação de segurança de dados dos munícipes. Ao longo dos trabalhos, a comissão colheu depoimentos de representantes de empresas terceiras que prestaram serviços à Tools. O colegiado também apurou indícios de irregularidades no processo de escaneamento, realizou oitivas com especialistas no assunto, advogados e com influenciadores que fizeram vídeos de divulgação sobre o projeto World ID.

A coleta da íris na cidade de São Paulo realizada pela startup Tools for Humanity teve as atividades suspensas em fevereiro de 2025. O processo de obter informações das pessoas chamou a atenção da mídia e dos órgãos reguladores em novembro de 2024 – quando a empresa operava em dez pontos da cidade.

Instalação

A CPI da Íris foi instalada em 19 de maio, após requerimento da vereadora Janaina Paschoal (PP). A parlamentar foi nomeada presidente da comissão no mesmo dia. Gilberto Nascimento (PL) foi eleito vice-presidente, e Ely Teruel (MDB) ficou com o cargo de relatora.

Principais trabalhos

Durante o andamento das atividades, a CPI aprovou diversos requerimentos. Os documentos solicitaram informações e participação de representantes de empresas, órgãos públicos e de influenciadores para auxiliar nas investigações.

No início de maio, os vereadores da comissão apresentaram um requerimento para ouvir o advogado especialista em direito digital e perito judicial, Walter Calza Neto, que foi convidado a apresentar uma análise sobre o modelo de funcionamento do projeto World ID. No mesmo mês, ainda foram intimados a depor como testemunhas Juliano Kimura e Britney Ohana – dois influenciadores digitais que explicaram postagens feitas nos respectivos perfis de redes sociais.

O colegiado também, em junho, ouviu Fabrício Guimarães Madruga Lopes, coordenador-geral de fiscalização da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), e Arthur Rollo, advogado e especialista em direito do consumidor. Eles participaram como colaboradores das atividades na Câmara de Vereadores, contribuindo com informações.

Já em agosto, os integrantes do colegiado realizaram oitiva com a coordenadora de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Subprefeitura Freguesia/Brasilândia, zona norte, Dalva Marques Rodrigues da Silva. Ela foi responsável pelo fechamento de um estabelecimento que mantinha atividades relacionadas ao escaneamento de íris de cidadãos paulistanos.

Ainda no mês de agosto, os vereadores da CPI também ouviram dois representantes da Tools for Humanity do Brasil. Um deles, Rodrigo Tozzi, que foi gerente de operações, garantiu à época que a empresa não armazena dados biométricos dos usuários. Ele negou haver qualquer tipo de comercialização das informações coletadas a partir do escaneamento da íris.

Em setembro, os parlamentares também receberam Tiago Cortinaz da Silva, proprietário da CV Gestão e Consultoria. Ele afirmou ter sido contratado para a locação de espaços e contratação de pessoal, em razão de sua experiência em consultoria de projetos educacionais. Segundo o depoente, a empresa chegou a abrir duas unidades, mas apenas uma entrou em operação após veto da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados).

Já em outubro, Gustavo Hausladen Lobato, da GHP Prestadora de Serviços Ltda, foi intimado para prestar esclarecimentos. Ele trabalhava na empresa investigada pela locação de espaços e contratação de pessoal para a execução do Projeto World ID em São Paulo.

Também em outubro, aconteceram três oitivas com influenciadores digitais para falarem sobre vídeos produzidos sobre o projeto World ID. No conteúdo, havia a explicação de que a tecnologia servia para identificar quem é humano, destacando a importância da ferramenta para a segurança digital.

No fim de outubro, a CPI colheu outros três depoimentos de representantes de empresas contratadas pela TFH para realizar as operações em São Paulo. O objetivo foi entender como funcionavam os contratos firmados entre as empresas. Um dos esclarecimentos foi feito pelo Maurício Machado Zanetti, da IGL Network S.A. Ele explicou que a empresa foi responsável pela operação de escaneamento da íris em pelo menos 12 endereços simultâneos entre os meses de março e julho de 2024.

Já em novembro, Alfredo Capra, advogado da Madison – outra empresa contratada pela TFH para realizar as operações no município – prestou depoimento. À época, ele disse que apesar de um contrato firmado com a Tools, não houve operações na capital devido às dificuldades bancárias.

No início de dezembro, estava prevista a oitiva de representantes do Banco Central e da Receita Federal, que não compareceram. Ainda no mesmo mês, o influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, foi convidado e compareceu à CPI. Na ocasião, o colegiado buscou esclarecer se o influenciador mantinha ou já havia mantido qualquer tipo de relação com a empresa TFH (Tools For Humanity), o que foi negado por ele.

Além dos depoimentos, a CPI da Íris aprovou diversos requerimentos ao longo de 2025. Os documentos pediram informações para diferentes órgãos públicos, profissionais, empresários, influenciadores, consulados e entidades.

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