Comissão da Verdade ouve novos depoimentos de torturados

RenattodSousa
Fui presa no dia 4 de novembro de 1970. Tive que me separar do meu filho recém-nascido com leite no peito. Cheguei ao DOPS e fui batizada de Miss Brasil (alusão a uma vaca premiada na época, no Parque da Água Branca) por estar ainda amamentando. Também fui chamada de vaca terrorista. Passei a noite tendo que dar explicações até sobre nota fiscal de supermercado. Foram os piores 40 dias da minha vida. Fui barbaramente torturada e por causa disso nunca mais pude ter filhos, disse Rose Nogueira, uma das convidadas a depor na Comissão da Verdade Vladimir Herzog nesta segunda-feira, na Câmara Municipal de São Paulo.

Rose foi presa pelos temidos agentes torturadores chefiados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Também passou pelo presídio Tiradentes. Depois de julgada, foi absolvida, mas impedida de trabalhar ou viajar por muitos anos. A jornalista virou alvo porque recebia militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN), da qual fazia parte, em sua casa. Eu era repórter de variedades da Folha da Tarde, e escrevia sobre espetáculos censurados. Isso também contribuiu para que eu fosse perseguida, lembra a jornalista, que depois de capturada foi demitida da empresa com a justificativa de que havia abandonado o emprego.

Atualmente Rose é diretora do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e militante de movimentos de direitos humanos. Em seu depoimento na Comissão, explicou que hoje acompanha ferozmente as estatísticas de resistência seguida de morte em assassinatos de cidadãos por policiais militares, divulgados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Em 2011, foram 606 casos de cidadãos mortos, contra 51 policiais, sendo que 35 desses estavam fora de serviço. Isso é herança da ditadura militar e as perseguições continuam até os dias atuais, completa.

O vereador Gilberto Natalini (PV), vice-presidente da Comissão, emocionou-se com o depoimento da jornalista. Eu conheci Tralli, o seu torturador, e ele enlouqueceu ou morreu, disse.

Na mesma sessão, o metalúrgico Cloves de Castro contou aos membros da Comissão que também foi preso e torturado de 1969 a 1971 por pertencer à ALN. Os jovens precisam saber o que aconteceu nos porões da ditadura. Minha história não é diferente dos que lutaram pela democracia, inconformados com o golpe militar, disse o depoente.

Apesar de tudo que passou, Castro afirmou à comissão que se orgulha de sua luta nos movimentos contra a ditadura e pós-ditadura. Elegemos um operário para o cargo mais importante do país e hoje temos uma presidenta. O Brasil amadureceu, disse Castro.

(17/09/2012 17h41)

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