Cerimônia homenageia vítimas da violência durante a ditadura

RenattodSousa
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A Comissão da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, promoveu um ato ecumênico nesta sexta-feira (2), Dia de Finados, em homenagem aos mortos e desaparecidos vitimas de violência de agentes do Estado durante o regime militar. A cerimônia, que aconteceu no cemitério da Vila Formosa, pediu a apuração e punição desses crimes e também reverenciou a memória dos jovens mortos recentemente pelos chamados esquadrões da morte e por pessoas autointituladas justiceiras nas periferias das grandes cidades.

Lembramos as pessoas que não foram encontradas no passado e as pessoas vítimas da violência na madrugada de hoje, em São Paulo, afirmou o vereador Ítalo Cardoso (PT), presidente da Comissão da Verdade.

Conduzida por sacerdotes de diversas religiões, com liturgia preparada pelo teólogo Luiz Carlos Ramos, o ato ecumênico contou com a participação da Companhia de Teatro do Parnaso e do Coro Luther King.  

Para José Luiz Del Roio, do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ), que também se pronunciou durante a cerimônia, é importante transmitir a memória das vítimas às próximas gerações, além de intensificar a luta por justiça. Esse ato está sendo repetido em vários cemitérios do Brasil. Queremos a mobilização da sociedade civil, afirmou.

Durante a ditadura, o cemitério da Vila Formosa foi um dos locais utilizados pelos militares para enterrar os corpos das vítimas assassinadas. Aqui havia uma espaço chamado quadra dos terroristas, afirmou Maria Amélia Teles, representante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Segundo ela, o cemitério provavelmente possui uma vala clandestina, como a vala de Perus, encontrada no cemitério Dom Bosco em 1990, onde foram descobertas mais de mil ossadas de indigentes, presos políticos e vítimas dos esquadrões da morte. No entanto, reformas no local e plantação de árvores por cima de covas teriam dificultado a identificação das ossadas.

Com flores, cartazes e folhetos com a história dos desaparecidos, familiares, militantes dos direitos humanos e outros participantes prestaram suas homenagens e se emocionaram com os textos e canções.  É uma emoção muito grande participar. Meu irmão foi enterrado aqui. Eu também fui perseguida e presa quando estava grávida de seis meses. Para mim é importante colocar para fora a história do País naquela época, afirmou Denise Crispim, irmã de Joelson Crispim, morto aos 22 anos com vários tiros nas costas e enterrado no Cemitério da Vila Formosa com o nome falso de Roberto Paulo Wilda.

Gregório Gomes da Silva, filho de Virgílio Gomes da Silva, considerado o primeiro desaparecido político do Brasil, também deu seu depoimento durante a cerimônia e falou sobre seus sentimentos em relação ao pai. Sempre vi meu pai como um heroi. Cresci com a ausência dele. Esse vazio nunca vai ser preenchido, os passeios que eu poderia ter feito com ele, nunca farei, afirmou. Silva foi um dos filhos que puderam hoje, pela primeira vez, colocar flores na quadra 47, local onde muitos indigentes foram enterrados e que serviu como sepultura simbólica às muitas vítimas da violência que ainda não foram encontradas.

(2/11/2012 – 14h)

 

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