Parlamentares recebem familiares e vítimas de bebidas adulteradas na CPI do Metanol

Comissão pediu condução coercitiva para dono de bar na Mooca, zona leste da capital

Por: KAMILA MARINHO
DA REDAÇÃO

3 de março de 2026 - 20:09
Foto de uma audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo, com pessoas em pé falando ao microfone. Plenário iluminado, com vereadores e público sentados em cadeiras azuis, ambiente formal e organizado.Richard Lourenço / REDE CÂMARA SP

Familiares de vítimas fatais e pessoas que ficaram com sequelas após a ingestão de bebidas adulteradas foram ouvidas pelas vereadoras e vereadores que compõem a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Metanol da Câmara Municipal de São Paulo. 

Os depoimentos aconteceram durante reunião desta terça-feira (3/3), no Plenário 1ª de Maio. O colegiado apura a comercialização de bebidas alcoólicas adulteradas por álcool etílico e metanol desde 2024.

Depoimentos de vítimas e parentes

Helena dos Anjos Martins da Silva compareceu pela segunda vez à CPI para contribuir com os trabalhos. A enfermeira  havia participado de uma reunião do colegiado em 16 de dezembro do ano passado. Ela é mãe de Rafael Anjos Martins, de 28 anos. 

O jovem foi intoxicado após  ingerir doses de gim com energético. As bebidas foram compradas em uma adega perto da casa dele em agosto de 2025, em Cidade Dutra, zona Sul da capital paulista. Após 50 dias internado, o rapaz faleceu em 23 de outubro.

“Eu vim atrás de respostas e de justiça. Justiça pelo meu filho, justiça pelos os que estão com sequelas e por muitos outros que não apareceram na mídia e não tiveram voz, infelizmente”, falou Helena. 

Quem também participou da reunião desta terça foi Leonardo Lima, de 24 anos. Ele perdeu a visão após ser intoxicado por metanol em uma festa em setembro do ano passado. Leonardo passou mais de um mês internado no Hospital de Heliópolis – também zona sul da cidade – e passou por sessões de hemodiálise. Ainda hoje, se recupera das sequelas. 

“Estou aqui, usando a minha voz pra lutar e tentar que o que aconteceu comigo, não aconteça com outras pessoas. Tudo isso é muito triste, tanto perder a vida como perder a visão, porque a nossa vida paralisa também. Eu vim até aqui hoje para pedir por justiça” disse Leonardo.

Josy Perdigão, mãe do Leonardo, também prestou depoimento. A motorista disse que precisou se dedicar exclusivamente ao filho. “Eu não posso trabalhar mais. Ele ficou muito debilitado e precisa muito da minha ajuda para quase tudo. ”

Ela também se indignou com a falta de punição dos responsáveis. “Quanto atraso e sofrimento que essas pessoas que só visam ao lucro causam às vítimas e família. É imensurável”. 

O vereador Celso Giannazi (PSOL), integrante do colegiado, se solidarizou com os depoimentos. “Eu gostaria de me solidarizar com as famílias que estão aqui. É um crime hediondo que cometeram com essas pessoas. Por isso, a minha solidariedade”. 

Sindibesp

Convocados pela comissão, compareceram às oitivas Hélio Silveira Lescio e Ualaci Anjos de Souza. Eles são, respectivamente, vice-presidente e diretor-financeiro do Sindibesp (Sindicato dos Trabalhadores em Depósito de Distribuição de Bebidas de São Paulo, Guarulhos, Osasco, Itapecerica da Serra, ABC e Diadema).

Os representantes do sindicato não reconhecem falhas na cadeia de distribuição de bebidas. Sobre a adulteração, a posição da instituição é de que não há como identificar as bebidas contaminadas. “Se o nosso sindicato souber de qualquer contaminação ou infração, será o primeiro a fazer a denúncia”, disse Ualaci.

Hélio e Ualaci serão convocados novamente para outros depoimentos, já que os vereadores consideraram insuficientes as respostas dadas durante os questionamentos. 

“Eu espero de uma próxima vez que vocês compareçam de forma preparada. Hoje vocês pouco puderam colaborar com a CPI do Metanol. Vocês representam milhares de trabalhadores desta cadeia de distribuição de bebidas, que podem em algum momento ter transportado produtos adulterados, ” observou a vereadora Sandra Santana (MDB), relatora da CPI.

Presidente da CPI, a vereadora Zoe Martínez (PL) destacou a importância da contribuição das pessoas que foram lesadas por causa da ingestão de bebidas contaminadas pelo metanol. “Foi bem emocionante a reunião de hoje, mas ao mesmo tempo muito intrigante. O pessoal do sindicato veio super despreparado. Uma falta de respeito não só com a comissão e com esta Casa, mas principalmente com as vítimas”.

Condução coercitiva

Estava prevista para a reunião de hoje a oitiva de José Rodrigues – proprietário do Bar Torres, localizado na Mooca, zona leste de São Paulo.  O empresário foi convocado e intimado pela comissão, e mais uma vez não compareceu. O estabelecimento foi interditado devido à morte de dois clientes por intoxicação com metanol em bebidas, mas voltou a funcionar.

Zoe apresentou um requerimento solicitando à Procuradoria do Legislativo paulistano o pedido de condução coercitiva via Tribunal de Justiça de São Paulo. “É um absurdo que esteja reaberto, com pessoas consumindo bebidas do estabelecimento. Não aconteceu nada com o bar. As vítimas não vão voltar. Os proprietários não quiseram vir prestar um simples depoimento”. 

“Acabou a amizade. Se não vierem por bem, terão que vir por mal mesmo, ” completou Zoe.

vereadora Ely Teruel (MDB), vice-presidente da CPI também se posicionou sobre a ausência do intimado. “Estou indignada. Lá no Bar Torres, nove garrafas foram recolhidas e vistoriadas, das quais oito estavam contaminadas. O proprietário admitiu em depoimento à polícia que comprou em distribuidora não regularizada. O bar está aberto e os familiares estão sem respostas”. 

Ely também apresentou um requerimento pedindo em caráter excepcional para que uma depoente sob custódia seja ouvida de forma híbrida. A vereadora se referiu à Vanessa Maria da Silva. A investigada foi presa em flagrante em uma fábrica clandestina, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, em outubro de 2025. Dois meses depois, ela foi condenada em 1ª instância a sete anos de prisão por adulterar, falsificar ou alterar substâncias alimentícias 

vereador Adrilles Jorge (UNIÃO), que também compõe a comissão, participou do debate. O parlamentar falou sobre a apuração dos fatos. “Um crime está sendo apurado. Um crime para obter um lucro ínfimo que assassinou vidas, tirou a visão de pessoas. De toda a formas, essa pessoa que colocou metanol nas bebidas, é um assassino pela sua omissão”. 

A reunião pode ser conferida aqui.

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