Nesta terça-feira (31/3), os integrantes da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Metanol receberam donos de estabelecimentos investigados por supostamente venderem bebidas adulteradas na capital paulista. Os vereadores do colegiado também ouviram Helena dos Anjos Martins da Silva, mãe de Rafael dos Anjos Martins, de 27 anos, que morreu após ingerir gin com metanol.
Desde outubro do ano passado, a CPI do Metanol apura a procedência de bebidas alcoólicas comercializadas na cidade de São Paulo. Um dos depoentes da tarde foi José Rodrigues, proprietário do Torres Bar, localizado na zona leste da capital. O local chegou a ser temporariamente fechado há aproximadamente quatro meses depois que dois clientes faleceram por eventual intoxicação de metanol.
Também foi ouvido nesta terça Ricardo dos Santos Pereira, dono do Empório Santos – adega onde o jovem Rafael dos Anjos Martins teria comprado bebida adulterada. À época, no espaço, foram apreendidas 14 garrafas suspeitas de estarem intoxicadas com o solvente.
Depoimentos
José Rodrigues compareceu na condição coercitiva. Ele está à frente do Torres Bar há 23 anos. O comerciante disse que conheceu o fornecedor do bar através da indicação de amigos. De acordo com o empresário, o vendedor não emitia notas fiscais das bebidas.
“Não tenho nota fiscal, ele (o fornecedor) dizia que ia me mandar pelo Whatsapp e nunca mandava”, afirmou José Rodrigues, que se comprometeu a enviar o contato do distribuidor à CPI.
Os vereadores Adrilles Jorge (UNIÃO) e Ely Teruel (MDB) questionaram o depoente sobre o motivo de ele não ter comparecido em uma reunião da comissão antes, já que o comerciante foi convidado e intimado diversas vezes. O proprietário do bar justificou as ausências devido a problemas de saúde.
“Eu passei mal, estava com um problema, estava no médico, estou tomando remédio, fiquei com a cabeça muito mal, tenho até os atestados. Não é por culpa, eu não tenho culpa”, falou José Rodrigues.
Os parlamentares também perguntaram a José Rodrigues o porquê ele reabriu o bar sem ordem judicial quando o estabelecimento estava temporariamente fechado. O empresário afirmou que houve um erro de comunicação com o responsável pelo processo. “Fui intimado duas vezes pela polícia. Prestei depoimento. O bar está aberto só para almoço, agora só vende cerveja e refrigerante”.
“Naquele momento a Vigilância Sanitária falou que estava liberado, mas não estava, a pessoa que estava cuidando do processo falou que podia abrir, mas não podia. Eu abri só um dia e fechei, não mais que isso”, disse José Rodrigues.
O comerciante ressaltou ainda que conhecia uma das pessoas que morreram após consumir bebida adulterada. Ele frisou que conversou com os familiares das vítimas e esclareceu que a situação foi um “triste acidente”. “Sou uma vítima de má fé, não sabia de nada. Jamais ia comprar uma bebida adulterada”.
Em seguida, Ricardo dos Santos depôs à Comissão Parlamentar de Inquérito. O dono do Empório Santos afirmou que trabalha com os mesmos fornecedores há cerca dez anos. “Seria hipócrita de falar que nunca comprei nada sem nota fiscal. É um erro sim, espero que todos aprendam mais com isso, entregamos para as autoridades tudo que tínhamos. Não conseguimos entender o que aconteceu, mas as investigações continuam e estamos colaborando com isso”.
O depoente explicou que compra o estoque do estabelecimento de diversos distribuidores. Ele disse que entregou tanto as notas quanto os recibos das compras de bebidas à polícia e à CPI. No entanto, Ricardo não soube dizer qual foi o fornecedor da compra das bebidas de gin constatadas com metanol.
Ricardo dos Santos também respondeu a questionamentos feitos pelos parlamentares em relação ao apoio oferecido à família da vítima – Rafael dos Anjos – e às cautelas para evitar novos casos de possíveis intoxicações no estabelecimento.
“Nós ficamos fechados por aproximadamente dois meses. Abrimos devido a um feedback positivo das autoridades. Contratamos uma assessoria, que está trabalhando conosco desde meados de novembro para fiscalizar tudo. A Vigilância Sanitária também está batendo lá diariamente. Hoje nem mesmo uma bala entra no nosso estabelecimento sem nota fiscal”, respondeu Ricardo.
O depoente também falou que tentou contato com os familiares de Rafael dias após o ocorrido, mas não obteve resposta. A afirmação foi contestada pela mãe da vítima – Helena dos Anjos Martins da Silva. Ela disse que o contato foi feito 53 dias depois da morte do filho.
“Meu filho faleceu no dia 23 de outubro, ficou 53 dias internado, não recebi um ‘oi’. A partir do momento que isso aconteceu, eu recebi uma mensagem da Adega Santos se solidarizando. Foi nessa hora que ele fez contato comigo. Eu estava na delegacia para abrir o boletim para meu filho ir para o IML (Instituto Médico Legal)”, afirmou Helena.
Vereadores
A presidente da comissão, vereadora Zoe Martínez (PL), fez observações sobre os depoimentos. “Deve ser muito difícil para as mães estarem aqui assistindo às ironias, à falta de transparência. Eu não tenho filhos, mas me coloco no lugar das mães. É uma situação bem complicada. Acho que deveriam se colocar no lugar também e ter um pouco mais de sensibilidade”.
Para o vereador Adrilles Jorge (UNIÃO), os estabelecimentos prezam o lucro e não a vida das pessoas. “Irresponsabilidade gera crime e é isso que as pessoas têm que perceber. Não é só dolo. A falta de responsabilidade em cima do lucro exorbitante é um caminho para o crime e acho que todos têm que aprender com isso aqui”.
Já a vereadora Ely Teruel (MDB) ressaltou que os comerciantes precisam se atentar aos produtos que compram. “Eles não se comprometeram a abrir as portas do estabelecimento, nem comprar uma bebida segura. Eles falam que também são vítimas. Será? Vítimas todos nós somos. Mas eles têm a responsabilidade de abrir o comércio e vender o melhor produto com nota fiscal, claro.”
Novas oitivas
A fim de aprofundar as investigações, os parlamentares convidaram Ricardo dos Santos Pereira a prestar esclarecimentos novamente. O colegiado também aprovou um requerimento para intimar o fornecedor de bebidas citado pelo José Rodrigues – dono do Torres Bar.
A reunião, que pode ser conferida aqui, foi conduzida pela presidente da CPI do Metanol – vereadora Zoe Martínez (PL). Estiveram presentes Ely Teruel (MDB), Sandra Santana (MDB), Adrilles Jorge (UNIÃO) e Celso Giannazi (PSOL).
