Ex-pacientes e familiares de vítimas da Covid-19 são ouvidos na CPI da Prevent Senior

Luiz França | REDE CÂMARA

Reunião ordinária da CPI da Prevent Senior desta quinta-feira (28/10)

DANIEL MONTEIRO
DA REDAÇÃO

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Prevent Senior ouviu, em reunião nesta quinta-feira (28/10), ex-pacientes e familiares de vítimas da Covid-19 que foram tratadas em hospitais da Prevent Senior. Os depoentes destacaram que a operadora buscou induzir e convencer as famílias a aceitarem a adoção de cuidados paliativos aos internados, ao invés de mantê-los na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e continuarem os tratamentos contra a doença.

Instalada no último 10 de outubro, a CPI busca analisar e investigar a atuação da Prevent Senior na capital paulista com a finalidade de enfrentar a Covid-19, como a possível subnotificação do número de casos de contaminação e de óbitos por parte da operadora de saúde.

Uma das suspeitas da Comissão é de que, para diminuir a quantidade de registros, a Prevent Senior teria agido para que pacientes com Covid-19 não tivessem a doença anotada em seus prontuários. Nos casos de morte, a informação também não constaria dos atestados de óbito.

Oitivas

Primeiro depoente, Tadeu Frederico de Andrade relatou aos vereadores a experiência de seu atendimento na Prevent Senior e a tentativa da operadora de adotar cuidados paliativos com ele, em detrimento à sua manutenção na UTI e à continuidade do tratamento contra a Covid-19.

Andrade detalhou os procedimentos internos adotados nos hospitais da Prevent, como pressão psicológica sobre a família para autorizar a adoção de cuidados paliativos e até mesmo mudança no tratamento dispensado aos pacientes. “O que fizeram lá com muitas famílias que perderam seus entes queridos não tem o nome de cuidados paliativos. Tem o nome de homicídio. Homicídio doloso qualificado”, afirmou.

Questionado, Andrade afirmou que foi ofertado a ele o chamado “Kit Covid” – composto por remédios sem eficácia científica comprovada – antes da confirmação do diagnóstico da doença. Além disso, ele disse também ter sido medicado com flutamida (medicamento para câncer de próstata, sem comprovação científica de eficácia para Covid-19 e cujo uso experimental não foi autorizado pelos órgãos responsáveis).

Na sequência, Tomas Monje contou a história de sua avó, de 94 anos, diagnosticada com Covid-19. De acordo com seu relato, ela foi medicada com o Kit Covid e apresentou piora em seu quadro. Quando levada ao hospital, houve resistência em interná-la, mas ela acabou acolhida e levada a um leito destinado à doença.

Monje afirma que sua avó teve alta dias depois, após apresentar melhora laboratorial e clínica. Contudo, no dia seguinte da alta, ela teve outra piora de saúde e, após ser novamente levada ao hospital, a família foi informada de que o quadro dela era irreversível. Diante disso, a família aceitou a recomendação pelo tratamento paliativo. “Nesse momento, minha mãe foi visitar minha avó para se despedir e, por surpresa, ela não estava inconsciente. Ela reconheceu meu pai, ela falou o nome dele”, disse. “Depois desse momento ela recebeu esse tratamento com a morfina, pararam de fazer algumas mensurações dos sinais e também a alimentação. Ela ficou em jejum, não foi alimentada nesse período”, acrescentou.

Ainda segundo o relato de Monje, no atestado de óbito de sua avó não havia indicação de Covid-19, mas de síndrome respiratória aguda. A causa da morte, inclusive, possibilitou que o velório e enterro não seguissem os protocolos sanitários vigentes.

Terceiro depoente, o jornalista Gilberto Nascimento lembrou que sua mãe, Terezinha de Jesus, também foi vítima da Covid-19 e seu atendimento na Prevent Senior ocorreu conforme os relatos anteriores, inclusive com a sugestão de adoção de cuidados paliativos ao invés de investir em tratamentos que visassem combater a doença. “Eu acho que fica evidente, como colocado, era um modus operandis, era uma maneira atuar, havia uma prática, havia uma sistemática e todos os relatos são praticamente iguais”, resaltou.

Em sua fala, Nascimento detalhou o acolhimento e o tratamento prestado à sua mãe, desde a entrada no hospital até o óbito. Dentre outros pontos, o jornalista apontou divergências entre o relato dos médicos sobre estado de saúde de sua mãe e o que eles conseguiam observar em visitas, além de insinuar que houve negligência no atendimento prestado pela Prevent Senior.

De acordo com Nascimento, houve inclusive falsificação no prontuário médico de sua mãe, uma vez que a família não autorizou a adoção de cuidados paliativos, mas uma médica ainda assim prescreveu o tratamento, afirmando que houve anuência da família.

Logo depois, Tércio Felippe Mucedola Bamonte contou a história de seu pai, que apresentou sintomas de Covid-19 logo após o início da pandemia, em 2020, e faleceu pouco mais de um mês depois de contrair a doença.

Cronologicamente, ele descreveu o desenrolar dos fatos, passando desde o atendimento inicial, idas e vindas para atendimento na Prevent Senior, passando pela liberação em um primeiro momento com devido a um suposto resultado negativo para Covid-19 e, ainda assim, a oferta do Kit Covid.

Bamonte ainda descreveu uma série de problemas no atendimento prestado, que culminaram na morte de seu pai. “Qual a sensação que eu tenho? Que a Prevent tirou de nós a possibilidade de tratamento, a possibilidade de cura quando, ciente de que ele tinha Covid-19, o mandou para casa. E se recusou a receber ele em outras três oportunidades de volta”, desabafou.

De acordo com Bamonte, dois meses depois da morte de seu pai, ele foi contatado por uma pessoa que se apresentou como representante da Secretaria Municipal da Saúde, questionando o porquê de seu pai ter sido liberado do hospital com diagnóstico positivo de Covid. Isso difere do que foi informado pela Prevent Senior, que havia dito a Bamonte que seu pai teve diagnóstico negativo. Além disso, a Covid-19 não consta no atestado de óbito como uma das causas da morte.

Última depoente, a pedagoga Andréa Rota fez um emocionado relato sobre o falecimento de seu marido, no dia 28 de março de 2021, aos 51 anos. De acordo com Andréa, seu marido tinha doenças cardíacas – informadas aos médicos – e, a despeito disso, foi medicado pela equipe da Prevent Senior com o chamado Kit Covid (alguns dos medicamentos não são recomendados para pessoas com problemas cardíacos).

Andréa detalhou todo o processo ocorrido entre o início dos sintomas de Covid-19, a prescrição do tratamento com medicamentos sem comprovação científica e a forma como ocorreu o acolhimento nas unidades hospitalares da empresa, apontando uma série de problemas e negligências no atendimento prestado pela empresa ao seu marido.

Ela ainda afirmou que, em determinado momento, filmou a situação à qual seu marido estava sendo submetido, mas que teve o celular tomado por seguranças da Prevent Senior. Segundo ela, eles apagaram a gravação e, só depois, devolveram o aparelho. Andréa ainda reforçou as denúncias de mau atendimento e negligência no atendimento da prestadora de saúde.

Opinião dos vereadores

O presidente da CPI, vereador Antonio Donato (PT) avaliou a reunião desta quinta-feira. “Os depoimentos foram estarrecedores, mas eles também vêm acompanhados de documentos, dos prontuários, dos atestados de óbito, do nome dos médicos que atenderam essas vítimas. E vai ser fundamental para o prosseguimento da CPI. A partir de agora, a gente vai ter que ouvir os médicos, ouvir a Prevent e apurar cada fato”, comentou Donato.

Já o relator dos trabalhos, vereador Paulo Frange (PTB), que também é médico, comentou as denúncias feitas pelos depoentes. “O que deixa mais preocupado é que o relato de todos têm o mesmo caminho: falta de um protocolo de atendimento e de uma linha clara de atendimento desses pacientes. Se fosse no primeiro mês de atendimento, em março do ano passado, a gente até relevaria. Mas, a partir daí, já foi ficando muito claro as condições e protocolos de atendimento dos pacientes”, comentou Frange, acrescentando ainda o uso de medicamentos não autorizados para Covid-19 como outro fato a ser investigado.

Requerimentos e encaminhamentos

Ao final dos depoimentos, a CPI da Prevent Senior aprovou 11 requerimentos com pedidos de informações, convites e convocações de representantes de diferentes entidades e órgãos para prestarem esclarecimentos sobre os assuntos investigados pela Comissão.

Também será relatado ao Ministério Público de São Paulo o descumprimento de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado pela Prevent Senior, no qual a empresa se compromete a liberar de imediato os prontuários de atendimento de seus pacientes quando solicitados por parentes diretos. Segundo denúncias na CPI, os depoentes pediram acesso aos documentos, que não foram fornecidos pela operadora de saúde.

A íntegra da reunião desta quinta-feira pode ser conferida neste link. Os trabalhos foram conduzidos pelo presidente da CPI da Prevent Senior, vereador Antonio Donato (PT). Também participaram o vice-presidente da Comissão, vereador Celso Giannazi (PSOL), o relator dos trabalhos, vereador Paulo Frange (PTB), os vereadores Milton Ferreira (PODE) e Xexéu Tripoli (PSDB), integrantes da CPI, além do vereador Fabio Riva (PSDB).

2 Contribuições

Luiz Urbano da Silva

Perdi minha mãe em 17 de maio de 2020. O plano de saúde: Prevent Senior. Diversas idas e vindas no ano de 2020. Ocorreu uma queda no banheiro, com fratura de costela, não sendo diagnosticado inicialmente. Prescrição médica: tratamento precoce de covid 19, com cloroquina e, agilidade em mandar uma senhora de quase 92 anos de idade de volta para casa. O prontuário de Maria de Lourdes Silva deve indicar o descaso no atendimento praticado tanto na unidade de Santana e Unidade Central – onde centralizou-se os casos de Covid.

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