Prêmios Institucionais

Marielle: muitas

Vereadora carioca virou referência mundial na luta pelos direitos humanos e nome de prêmio na Câmara de São Paulo
Tempo estimado de leitura: 14 minutos

Texto: Fausto Salvadori | fausto@saopaulo.sp.leg.br

“Sou força porque todas nós somos”, disse Marielle Franco em um vídeo da sua primeira e única campanha política, em 2016, quando foi eleita a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. Retomou essa afirmação no ano seguinte, em seu primeiro discurso na Câmara Municipal carioca. “Acho que esse é o lugar do Parlamento que a gente disputou tanto e do lema que a gente trata, do ‘Eu sou porque nós somos’, e somos inclusive nas diferenças”, afirmou em sua estreia no púlpito, usando um turbante colorido e um vestido sem mangas que contrastavam com os paletós e gravatas que predominavam entre seus pares — a maioria homens e brancos.

A mesma ideia tornou a aparecer em sua última fala pública, na noite de 14 de março de 2018, durante um encontro com outras militantes feministas, na sede do Instituto Casa das Pretas, na Lapa, região central, que Marielle encerrou lendo uma citação da poeta estadunidense Audre Lorde — “Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas” — e acrescentando, com o entusiasmo que era a marca de sua atuação política e o sorriso largo com que encarava a vida: “Vamo que vamo! Vamo junto ocupar tudo!”.

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Marielle adotou a filosofia ubuntu: “Eu sou porque nós somos” | Crédito: Mídia Ninja

O lema adotado por Marielle ao longo da sua breve e intensa trajetória provinha da filosofia ubuntu: “Eu sou porque você é”. O ubuntu, segundo reportagem da BBC, foi criado pelos povos bantus, grupo étnico da África subsaariana, à qual pertencia a maioria dos africanos trazidos à força para o Brasil como escravizados, e se espalhou pelo mundo após a abolição do apartheid na África do Sul, em 1994, quando ganhou a fama de ter sido empregado pelos sul-africanos para ajudar a superar os traumas deixados pelo regime de segregação racial.

Eu sou porque você é. Parece uma ideia simples. E é. Mas que nem por isso deixa de ser desafiadora. O ubuntu nega um dos conceitos mais arraigados do senso comum ocidental: a noção de individualismo, que divide cada um de nós em existências obrigatoriamente separadas, quando não opostas, em relação às demais. “A filosofia ubuntu, que fala do debate da negritude, é uma relação que ultrapassa o personalismo, no qual o lugar fundamental é o da res publica [coisa pública], e o lugar da coletividade, de trabalhar e pensar no outro, para o outro, com o outro”, explicou a vereadora naquele mesmo discurso de posse de 15 de fevereiro de 2017.

Adotado por Marielle como um norte ao longo de sua vida, o ubuntu pode ser lido como uma chave para compreender a sua trajetória, em que só foi possível a ela ser o que foi, com a força e o brilho com que durou, porque refletia as dores, os sonhos e as lutas de muitas. Se foi assim com a vida de Marielle, o mesmo se deu com sua morte, sentida e vivida não como o assassinato de um único indivíduo, mas como uma tragédia coletiva. E que por isso despertou a mobilização de multidões, tanto para exigir a punição dos culpados, como para garantir que a luta de Marielle não morresse com ela, mas se transformasse em semente de muitas outras ações. Uma das quais foi plantada na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), que desde 2024 promove o Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos.

Projeto da favela

Para Marielle ser, foi preciso que outras e outros tivessem sido antes dela. A sua chegada à política significou o resultado e a continuidade dos esforços em busca da inclusão que há tempos vinham sendo travados pelos movimentos negros das favelas. “Marielle foi um projeto nosso”, definiu o geógrafo Lourenço Cezar da Silva, ativista do complexo de favelas da Maré, em entrevista à Ponte Jornalismo, referindo-se ao cursinho pré-vestibular comunitário criado pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), ONG de grande impacto na juventude local, e que incluía, entre os alunos da sua primeira turma, em 1998, a jovem Marielle Franco, então com 18 anos. “A formação que a gente tem até hoje é pra ocupar esse lugar que ela ocupou. A gente já estava pensando em novos quadros para ocupar outros espaços.”

Repetindo o destino de muitas outras adolescentes da favela, Marielle engravidou e teve de deixar os estudos para cuidar da filha, Luyara. Em 2000, apesar das dificuldades, conseguiu voltar para o cursinho. “Não fugindo da estatística num primeiro momento, mas depois fugindo”, como ela dizia. Graças ao cursinho da Maré, ingressou em 2002, com bolsa integral, no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

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Crédito: Daniel Pimentel

Nascida e criada na Maré, Marielle desde sempre teve de enfrentar a pobreza e a violência. Diante da casa onde vivia com a mãe (Marinete), o pai (Antonio) e a irmã (Anielle), seis anos mais nova, passava uma vala de esgoto a céu aberto. Começou a trabalhar com 11 anos, primeiro como camelô e depois como assistente de creche. O salário era usado para pagar as escolas dela e a da irmã, de quem ajudou a cuidar desde cedo, levando e buscando no colégio e participando das reuniões escolares, sempre que a difícil rotina de trabalhador dos seus pais os impedia de estarem presentes.

“Era uma menina cuidando de outra. Mas, para mim, você era a Mulher-Maravilha. Principalmente quando a gente tinha que se proteger de tiroteio na favela. Você me abraçava assim que ouvia os tiros, como se fosse meu escudo”, escreveu Anielle em um diário dirigido a Marielle, posteriormente publicado em forma de livro, com o nome Minha irmã e eu.

Nascida Marielle Francisco da Silva, irritou-se com o bullying que sofria na escola por causa do sobrenome masculino e passou a adotar, por conta própria, o sobrenome Franco. Festeira, adorava funk e atuou como dançarina na cobiçada função de Garota Furacão 2000. Era também muito católica, de fazer crisma e dar aula de catequese (“primeiro reza o terço, depois dança o funk” era um lema dentro de casa). E foi numa viagem organizada por jovens da igreja que frequentava, na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, ali na Maré, que em 2004 conheceu uma outra moradora da favela, Monica Benicio, então com 18 anos. Não demorou e as duas se apaixonaram — para a surpresa de ambas, que nunca haviam vivido um relacionamento amoroso com outra mulher.

O começo do namoro foi difícil para elas, que passaram a sofrer ataques preconceituosos de familiares e amigos dos dois lados. Acabaram rompendo em 2006, mas continuaram a se relacionar pelos anos seguintes, entre idas e vindas, até decidirem retomar de vez o relacionamento em 2013. Foram morar juntas em um apartamento na Tijuca, zona norte, em 2017, e pretendiam se casar em 2019. Um dos muitos planos de Marielle que acabariam interrompidos.

Carreira política

Se eu sou porque você é, o que acontece quando você deixa de ser? E deixa de ser justamente por causa de políticas públicas que excluem e matam? Marielle teve que buscar essa resposta ao perder uma amiga do tempo de cursinho, a estudante de economia Jaqueline, baleada durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. Decidiu abraçar a militância pelos direitos humanos, que a levaria para a política partidária.

Seu padrinho foi Marcelo Freixo, que havia sido professor de sua irmã no cursinho do CEASM e que, em 2006, lançou-se candidato a deputado estadual pelo PSOL. Marielle integrou um grupo na Maré que fez campanha para Freixo e apresentou propostas da favela para serem incorporadas pelo candidato. Com Freixo eleito, o grupo deveria escolher um de seus membros para trabalhar na assessoria do deputado e não teve dúvidas: indicou o nome de Marielle.

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Marielle Franco durante debate em 2016 | Crédito: Marcelo Freixo

A atuação do mandato de Freixo incomodou diversos setores políticos e criminosos poderosos na época, ao presidir a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, que indiciou 225 pessoas. Como assessora parlamentar, Marielle coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na qual prestou auxílio jurídico e psicológico a vítimas de violência, tanto do Estado, quanto dos próprios policiais — por entender que parte deles também é vítima de violações.

Marielle levou seu olhar crítico para a academia, ao cursar o mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF). Defendeu, em 2014, a dissertação UPP: A Redução da Favela a Três Letras. Enquanto muitos ainda viam as Unidades de Polícia Pacificadora como uma política promissora de ocupação pelo Estado de áreas antes dominadas pelos grupos criminosos armados, Marielle denunciou que “tal ocupação não é do conjunto do Estado, com direitos, serviços, investimentos, e muito menos com instrumentos de participação”, mas apenas uma ocupação policial e militarista, reforçando a mesma velha política de “investida aos pobres, com repressão e punição”.

Após dez anos trabalhando com Freixo, Marielle aceitou a proposta do partido de se lançar candidata a vereadora, em 2016. Na campanha, adotou a hashtag #eusouporquenossomos e se apresentava dizendo: “Eu sou Marielle Franco: mulher, negra, mãe, da favela”. Ao mesmo tempo em que se definia, descrevia milhares de outras como ela. A campanha deu certo.

Sua vitória desafiou várias estatísticas: tornou-se a única vereadora negra daquela legislatura, e a terceira em toda a história da Câmara Municipal carioca. Fora do Rio, também havia poucas como ela: dos 811 vereadores eleitos nas capitais naquele ano, apenas 32 eram mulheres negras.

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Estátua de Marielle no Buraco do Lume, na Praça Mario Lago, na região central do Rio de Janeiro | Crédito: Mwaldeck

Os direitos humanos estiveram no centro da sua atenção parlamentar, em várias frentes. Entre seus projetos, estavam o Espaço Coruja, estruturado para atender crianças cujos responsáveis trabalham ou estudam durante a noite; o Dossiê Mulher Carioca, que determinava a sistematização de estatísticas pelos órgãos municipais para embasar a criação de políticas públicas voltadas às mulheres; e a obrigatoriedade de fixação de cartazes em unidades de saúde com diretrizes sobre o atendimento a vítimas de violência sexual, entre outros.

Todos eram bem recebidos em seu gabinete. Pessoas em situação de rua podiam contar com escuta e um prato de comida. “Tinha sempre comida na geladeira do gabinete. Ela dizia ‘eu não vou chamar um irmão preto meu de mano, mana, se meu estômago está cheio e o dele não tá’”, contou Dayana Gusmão, militante da Frente Lésbica e colega de Marielle, em entrevista à Ponte.

As falas daquela mulher negra e altiva no púlpito da Câmara chamavam a atenção. “A minha palavra é palavra de mulher, mas vale. Não é só palavra de homem que vale, não”, declarou em uma de suas intervenções. Um momento marcante foi o discurso que proferiu em 8 de março de 2018, Dia da Mulher, escrito em parceria com a irmã, Anielle, e que começava assim: “O que é ser mulher? O que cada uma de nós já deixou de fazer ou fez com algum nível de dificuldade pela identidade de gênero, pelo fato de ser mulher?”.

A cena viralizou, contudo, não tanto pelo que estava escrito no papel, mas pelo que Marielle teve de improvisar ao ser interrompida. Sem qualquer relação com a fala de Marielle, um homem na galeria gritou “Viva Ustra”, referindo-se a Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante da repressão durante a ditadura que se tornou o primeiro militar reconhecido como torturador pela Justiça brasileira. A resposta de Marielle tornou-se icônica: “Não serei interrompida. Não aturo interrupção dos vereadores desta Casa. Não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita”.

Como vereadora, Marielle presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e fez parte da comissão de representação da Câmara Municipal instituída para acompanhar a Intervenção Federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, decretada no início de 2018 pelo então presidente Michel Temer e comandada pelo general Walter Braga Netto — o mesmo que, seis anos depois, seria preso e condenado por participação em uma tentativa de golpe de Estado.

As violências praticadas pelas forças policiais contra a população negra e pobre das favelas eram um tema constante de sua atuação. “Quantos mais vão precisar morrer para essa guerra acabar?”, escreveu, a respeito da morte de um jovem negro pela PM, em 13 de março de 2018. Um dia depois, ela própria se tornaria uma vítima dessa guerra.

As muitas mortes de uma mulher

O encontro Jovens Negras Movendo as Estruturas, que Marielle mediou na Casa das Pretas, na noite de 14 de março, foi um evento em que ela mais ouviu do que falou. Numa de suas intervenções, se disse feliz com a própria trajetória de vida, sempre lembrando que fazia parte de uma construção coletiva: “Quando hoje eu estou nesse campo, fico muito feliz com a minha trajetória e minha construção de vida, que não pode ser só uma construção individual, vir muito antes desse um ano e alguns meses de mandato… é porque nossos passos vêm de longe mesmo”. E lembrou das vereadoras negras que vieram antes dela: “Na Câmara, antes de a gente entrar, foram dez anos antes com a Jurema [Batista]. E dez anos antes da Jurema, a Benedita [da Silva]. A gente não pode esperar mais dez anos ou achar que eu estarei ali por dez anos.”

Era um reconhecimento aos que vieram antes dela, mas também uma denúncia da falta de representatividade do sistema político, que parecia ser capaz de se abrir para permitir a chegada de somente uma mulher negra por vez entre os parlamentares cariocas. Por outro lado, ao falar em “não estar aqui nos próximos dez anos”, soava tristemente profética em relação ao que aconteceria dali a pouco.

Marielle deixou o debate pouco depois das 21h, no carro dirigido pelo motorista Anderson Gomes, acompanhada por uma assessora, a jornalista Fernanda Chaves. Tinha enviado há pouco uma mensagem para a esposa, Monica, que estava gripada, dizendo: “Vou o mais rápido para cuidar de você”.

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Escadaria pintada com o rosto de Marielle Franco, em São Paulo | Crédito: Parzeu

A três quilômetros dali, um outro carro emparelhou com o da vereadora e disparou uma sequência de tiros. A assessora escapou, mas quatro disparos atingiram Marielle na cabeça e outros três acertaram as costas do motorista. Os dois morreram na hora. Anderson tinha 39 anos e era pai de um bebê de um ano e oito meses.

Em seu diário, Anielle descreveu o encontro com a irmã na cena do crime: “Sua bolsa azul e seus óculos estavam no chão. Sua mão estava para fora do carro. Seu sangue, nosso sangue, pingava no chão”.

As mortes de Marielle e Anderson não foram uma exceção. “Embora o caso tenha recebido cobertura da mídia internacional, não foi um evento excepcional, mas sim parte de um fenômeno mundial: a resolução de conflitos políticos por meio da execução de adversários”, afirma o estudo Democracia Letal, da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que analisou os crimes contra políticos e ativistas no Brasil entre 2003 e 2023. Em 20 anos, foram registrados 1.228 casos de violência política letal no País: 760 assassinatos, 358 tentativas de assassinato e 110 ameaças graves de morte. Cinco por mês, em média.

Se essas mortes faziam parte da paisagem da política nacional, a mobilização que despertaram foi diferente de tudo. Como uma pessoa que reunia em si as características de grupos que historicamente são alvo de ódio e repressão, Marielle passou a simbolizar o rosto e o nome de todas essas vítimas.

“Tinha muitas camadas a Marielle. Foi vítima, por isso, de múltiplos assassinatos. Cada tiro atingiu uma pele. A pele da mulher negra. A pele da mãe. A pele da favelada. A pele da socióloga. A pele da defensora dos direitos humanos. A pele da representante eleita para a Câmara Municipal de uma cidade tomada pela brutalidade e pelo medo. Marielle teve o corpo abatido. Sofreu morte física, mas também simbólica. Numa só mulher, muitos significados”, escreveu a jornalista Flávia Oliveira.

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Projeção de imagem de Marielle Franco na cúpula da Câmara dos Deputados, em 24/7/20 | Crédito: Roque de Sá/Agência Senado

Protestos cobrando justiça para Marielle e Anderson reuniram milhares de pessoas em diversas cidades. A cantora estadunidense Katy Perry homenageou Marielle e levou Anielle e Luyara para o palco em um show na Praça da Apoteose, quatro dias após o crime. Roger Waters faria o mesmo no Maracanã, em 25 de outubro, levando também Monica Benicio e vestindo uma camiseta com a frase “Lute como Marielle Franco”. Numa ação coordenada, em 14 de agosto a Câmara Municipal do Rio aprovou seis projetos de lei de autoria de Marielle. Placas de rua simbólicas com seu nome foram pregadas em diversos lugares, mas ela também virou nome de rua, real e oficial, em diversas cidades, inclusive Paris, na França, e Colônia, na Alemanha. Recebeu uma placa em uma estação de metrô em Buenos Aires, Argentina, e uma estátua com o punho erguido no centro do Rio.

Nem todas as reações, porém, foram positivas. Mentiras e ofensas sobre a memória de Marielle começaram a circular horas após sua morte. Apenas dois dias após o crime, uma desembargadora publicou que a vereadora estava “engajada com bandidos” e que a comoção com sua morte era “mimimi da esquerda” com um “cadáver comum” (seis anos depois, ela seria condenada no Conselho Nacional de Justiça pela declaração). Nas eleições, o gesto de rasgar placas com o nome da vereadora passou a ser repetido por candidatos. Era como uma tentativa de um segundo assassinato da vereadora, agora para destruir sua imagem.

Sementes

Imune aos ataques, o legado de Marielle perdurou de muitas formas. Uma delas é a mobilização de outras mulheres negras que se lançaram na política, inspiradas pelo exemplo dela e retratadas no documentário Sementes: Mulheres Pretas no Poder. Em uma cena do filme, a deputada estadual Renata Souza, em resposta à pergunta de uma TV espanhola se ela se considerava herdeira de Marielle, responde com um claro “não”, por entender que essa herança, como tudo o que diz respeito a Marielle, é sempre coletiva. “O que é a Marielle é grandioso demais para a gente pensar que uma vai carregar isso. São mulheres que têm que carregar isso. São mulheres negras que estão na base da pirâmide social, da exclusão, que precisam carregar isso com a gente.”

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Capa da história em quadrinhos “Raízes”, sobre Marielle | Crédito: Instituto Marielle Franco

Na Câmara Municipal de São Paulo, a vereadora virou nome do Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos, nascido de um projeto de 2018 assinado pelos então vereadores Sâmia Bomfim, Celso Giannazi, Daniel Annenberg, Adriano Santos, Eduardo Matarazzo Suplicy, Elaine do Quilombo Periférico, Jussara Basso, Luana Alves e Professor Toninho Vespoli. O prêmio, concedido por uma comissão formada por entidades de direitos humanos, serve para “valorizar pessoas que atuam na promoção e defesa dos Direitos Humanos” e “valorizar o combate a toda forma de preconceito ou violência, relacionados a questões de gênero, raça, etnia, origem ou condição social, religião, orientação sexual ou qualquer outro pretexto discriminatório”, além de valorizar “a experiência na luta contra o racismo” e a “autonomia e liderança das mulheres”.

Para relembrar Marielle, a premiação ocorre sempre em março, mês em que ela foi arrancada da vida. Na primeira edição do evento, em 2024, Sâmia Bonfim, já como deputada federal, definiu a importância da honraria, em entrevista à TV Câmara: “Homenagear essas mulheres é fortalecer o legado de Marielle e reconhecer que tem muita gente que nem sempre tem espaço institucional, mas que faz uma luta real”.

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Sessão solene para entrega do Prêmio Marielle Franco, em 30/3/26 | Crédito: Gute Garbelotto / CMSP

‘Matar uma de nós é muito mais fácil’

A celebração reiterada do nome de Marielle e o cultivo permanente da sua memória foi fundamental para garantir que o crime não fosse esquecido. Os interesses para sepultar a lembrança de Marielle, junto com seu corpo, eram poderosos e incluíam até a cúpula da Polícia Civil, como depois ficou comprovado. Os autores do crime, dois ex-policiais militares que atuavam como pistoleiros, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, foram presos pela Polícia Civil em 2019, exatamente um ano após os assassinatos, mas a investigação parou aí, sem conseguir responder à pergunta “quem mandou matar Marielle e Anderson?”.

Os mandantes do crime foram aparecer somente em janeiro de 2024, quando os pistoleiros firmaram um acordo de delação com a Polícia Federal. Após a homologação do acordo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a PF prendeu três suspeitos pelo crime: o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, irmão de Domingos, e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa.

Em outubro do mesmo ano, os matadores foram condenados no 4º Tribunal do Júri do Rio: Ronnie Lessa, o autor dos disparos contra Marielle e Anderson, recebeu a pena de 78 anos e 9 meses de prisão, enquanto Élcio Queiroz, que dirigiu o carro usado no atentado, recebeu 59 anos e 8 meses. “A justiça por vezes é lenta, é cega, é burra, é injusta, é errada, é torta, mas ela chega. A justiça chega para aqueles que, como os acusados, acham que jamais serão atingidos pela Justiça”, disse a juíza Lúcia Glioche na leitura da sentença.

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Família de Marielle durante julgamento no STF: Antonio (pai), Anielle (irmã), Luyara (filha), Marinete (mãe), Monica (viúva) | Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

O relatório da PF apontou que os irmãos Brazão atuavam como milicianos, explorando condomínios ilegais na zona oeste da capital fluminense, e teriam encomendado a morte de Marielle por conta da resistência representada pela bancada do PSOL a um projeto de lei que regularizava essas áreas. Como os dois réus tinham foro privilegiado, o julgamento foi parar no STF. Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma da Corte condenou os irmãos a 76 anos e 3 meses de prisão cada um, por duplo homicídio, tentativa de homicídio (contra a assessora Fernanda Chaves) e organização criminosa armada. Já Rivaldo Barbosa, pago pela milícia para atrapalhar as investigações, foi condenado a 18 anos de prisão por obstrução de justiça e corrupção passiva.

Próximo ao final do julgamento na Primeira Turma, a ministra Carmen Lúcia, única mulher na Suprema Corte brasileira, despiu-se por alguns momentos da impessoalidade da toga de magistrada e, ao falar de Marielle, falou também de si própria. “Somos muito parecidas com os seres humanos, mas não temos a integridade de um reconhecimento pleno. Matar uma de nós é muito mais fácil”, denunciou a ministra.

Logo depois, dirigindo-se diretamente à mãe de Marielle, Carmen Lúcia se lembrou da própria mãe: “Dona Marinete, não acho que é só sua filha. Estou falando como minha mãe também poderia dizer: é muito mais fácil me matar do que matar os outros três aqui”, e nesse momento apontou para os outros membros da Primeira Turma, todos homens. “Porque ‘não vai acontecer nada’. O que eles não sabiam é que aconteceria”, concluiu. Um raro momento em que uma juíza se identificou com a vítima e reconheceu que ambas faziam parte da mesma unidade, uma sendo porque todas eram. Ubuntu.

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Manifestantes posam segurando placas simbólicas com o nome de Marielle, em 14/10/18 | Crédito: Marcelo Freixo

Edição: Sândor Vasconcelos | sandor@saopaulo.sp.leg.br

Saiba mais

Livros

ARAÚJO, Vera; OTÁVIO, Chico. Mataram Marielle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

BENICIO, Monica. Marielle e Monica: uma história de amor e luta. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2024.

FRANCO, Anielle. Minha irmã e eu: diário, memórias e conversas sobre Marielle. São Paulo: Planeta do Brasil, 2022.

FRANCO, Marielle. UPP: a redução da favela a três letras. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Marielle Franco – Raízes. Disponível em https://www.institutomariellefranco.org/hq.

Vídeos

Sementes: Mulheres pretas no poder. Direção de Éthel Oliveira e Júlia Mariano. Disponível em https://embaubaplay.com/catalogo/sementes-mulheres-pretas-no-poder.

Marielle, o documentário. Direção de Caio Cavechini. Disponível na Globoplay.

Site

Instituto Marielle Franco

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