Texto: Rodrigo Garcia rodrigogarcia@saopaulo.sp.leg.br
“Um polímata!”, é assim, com uma voz entusiasmada e usando uma palavra rara, que significa “aquele que sabe muito sobre muitos assuntos”, que o pesquisador José D’Amico Bauab, do Centro de Memória do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), define o professor, advogado, escritor, historiador e político Aureliano Leite.
E, além de tudo, o imortal da Academia Paulista de Letras (APL) era generoso, pois, em vida, doou sua biblioteca de 8 mil itens para a Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), mesmo nunca tendo sido vereador.
O amor a São Paulo não foi de nascença. Foi construído. Aureliano Leite nasceu em Ouro Fino, no sul de Minas Gerais, em 20 de novembro de 1886, filho do tabelião João Monteiro de Meireles Leite e da professora de crianças Maria Almeida Meireles Leite.
Começou a estudar em sua cidade natal. Ainda jovem, transferiu-se para a capital paulista, onde realizou os estudos secundários (equivalentes ao atual ensino médio). Em 1906, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, diplomando-se em 1910.
“Um polímata” José D´Amico Bauab, pesquisador, sobre Aureliano Leite
Já no tempo de estudante, escreveu para jornais como Alvorada, Diário Popular, Diário Nacional, Folha da Manhã (antecessora da Folha de S.Paulo) e Jornal do Comércio.
Leite participou bastante da vida política de São Paulo. Em 1924, ficou contra a revolta dos militares de baixa patente ocorrida naquele ano, tendo criticado os líderes do movimento no livro Dias de pavor — pessoas e cenas da revolução de 1924, publicado logo depois dos fatos ocorridos.
Na ocasião, os revoltosos tentaram derrubar o presidente Arthur Bernardes, que governava o Brasil com mão de ferro, valendo-se da decretação de estado de sítio e da perseguição a adversários políticos e operários, além de ser acusado de corrupção.
Foi o primeiro livro de Aureliano Leite. Viriam muitos a seguir. Anos depois, o escritor admitiu ter sido injusto com os revolucionários de 24. “Grande sucesso de livraria. Não tardou uma segunda edição. E não se tirou a terceira porque, numa ligeira convivência com os homens da situação da terra, eu verificara que, se os conhecesse melhor, não tomaria posição ao lado do governo, mas sim contra o governo”, afirmou Leite nas suas memórias, Páginas de uma longa vida, escritas em 1966.
O escritor apoiou a Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo pegou em armas contra o governo federal, sob controle de Getúlio Vargas, que tinha assumido o poder com a revolução de 1930, depondo Washington Luís. Os paulistas exigiam uma Constituição.
Com a derrota do movimento, exilou-se em Portugal, retornando ao Brasil em 1934, após a anistia concedida por Getúlio Vargas aos participantes da revolução de 1932. Um ano depois, foi eleito deputado federal pelo Partido Constitucionalista, mas o mandato durou pouco. Em 1937, Vargas deu um golpe e fechou o Congresso Nacional, as Assembleias Estaduais e as Câmaras de Vereadores. Era o começo da ditadura do Estado Novo.
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Imortais da Academia Paulista de Letras, como Lygia Fagundes Telles, enviavam livros com dedicatória para Leite | Crédito: Mozart Gomes/CMSP
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Entre os aproximadamente 40 livros escritos por Leite, Brio de Caboclo, publicado há 100 anos, é um dos destaques | Crédito: Mozart Gomes/CMSP
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Alguns livros do acervo doado por Leite têm comentários. O romance Tereza Batista cansada de guerra, de Jorge Amado, é um exemplo | Crédito: Mozart Gomes/CMSP
Em 1945, os militares derrubaram Getúlio, pondo fim ao Estado Novo e trazendo de volta o regime democrático. Aureliano Leite foi eleito deputado constituinte pela União Democrática Nacional (UDN) naquele ano. Na elaboração da Constituição de 1946, propôs e obteve o apoio da maioria dos parlamentares para que os portugueses tivessem privilégios no Brasil em relação a outros estrangeiros, podendo se naturalizar com apenas um ano de residência no País.
Eleito deputado federal novamente em 1954, destacou-se também por seu esforço para que o idioma falado no Brasil continuasse sendo denominado “português” e não “língua brasileira”, como defendiam alguns pesquisadores.
Ao longo de seus 90 anos, escreveu, entre tantas obras, livros de História (A vida heroica de Bárbara Heliodora, Martírio e glória de São Paulo – Revolução Constitucionalista de 1932, História da Civilização Paulista em breve resumo), romances (Amador Bueno, o aclamado, Terra de cacique), contos (Por águas e terras, Brio de caboclo), perfis (Retratos a pena: galeria de homens de minha admiração) e memórias (Episódios do exílio – Portugal, Espanha e França e Memórias de um revolucionário – Revolução de 1930: pródomos e consequências).
Um legado útil
Um dos maiores benefícios que Aureliano Leite fez à população paulistana foi ter doado, em 1973, sua biblioteca à Câmara Municipal de São Paulo. O acervo é composto por livros sobre a história de São Paulo, revoluções brasileiras, literatura e história do Brasil e de Portugal. Algumas obras são raras, como um exemplar publicado em 1797 de Memórias para a história da Capitania de S. Vicente, hoje chamada de S. Paulo, de Gaspar da Madre de Deus, e obras de Monteiro Lobato e Lygia Fagundes Telles com dedicatórias a Leite, entre outras preciosidades.
Em carta enviada em 17 de agosto ao então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Brasil Vita, o escritor deu informações sobre sua “pequena biblioteca”, como ele se referia ao acervo que pretendia doar. “Trata-se de uma coleção de obras reunidas, ou melhor, amealhadas no decurso de minha longa existência”, escreveu, desejando que a doação garantisse vida longa ao material: “E assim viva essa pequena biblioteca, em definitivo, pelo tempo afora, bem cuidada a sua conservação”. Na carta, Leite conta que não sabia a quantidade exata de itens. “Contém, talvez, entre volumes e folhetos, cerca de, por ventura, 10 mil unidades”.
“Se os conhecesse melhor, não tomaria posição ao lado do governo, mas sim contra o governo” Aureliano Leite, sobre os revolucionários de 1924
A supervisora da Biblioteca da CMSP, Thaís Rocha, afirma que a doação de Aureliano Leite foi de aproximadamente 8 mil itens, entre livros, periódicos, encartes, folhetos e recortes selecionados pelo próprio intelectual. “Esse ato foi de relevante importância para a Biblioteca da Câmara, permitindo o enriquecimento do acervo e a possibilidade de se tornar a intermediadora entre o rico conhecimento do colecionador e os cidadãos da cidade a que ele tanto se dedicou”, diz Thaís. “A grande importância de seu acervo é permitir a todos que se interessam pela cidade e pelos assuntos abrangidos a segurança e a certeza de acesso às informações”, completa.
Na mesma carta que enviou ao presidente da Câmara, o historiador concluiu solicitando autorização para ter livre acesso à biblioteca “quando a ela tenha que recorrer para qualquer estudo”. Muito provavelmente, o historiador estava pensando nas pesquisas que realizava sobre fatos paulistanos do passado, já que, em 27 de fevereiro de 1973, havia assinado um contrato com a Câmara Municipal para “investigar e elaborar a História do Organismo Administrativo de São Paulo, Vila e Cidade – O Município (Legislativo e Executivo)”.
Linha do Tempo
Nasce em Ouro Fino (MG)
Forma-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco
Elege-se deputado federal
Torna-se membro da Academia Paulista de Letras
É eleito para a Assembleia Nacional Constituinte
Recebe o título de Cidadão Paulistano na CMSP
Doa sua biblioteca para a Câmara Municipal de São Paulo
Morre em São Paulo aos 90 anos
Brasil Vita tinha convidado os pesquisadores Marcos Mélega, ex-vereador, e Aureliano Leite para contar a história da municipalidade de São Paulo. Mas Mélega morreu logo no início dos trabalhos, em 30 de março de 1974, sendo substituído pelo jornalista João de Scatimburgo. Ambos escreveram a obra História da Municipalidade de São Paulo, dividida em dois volumes. Leite ficou responsável pelo período que vai da fundação até o quarto centenário da cidade, em 1954.
Na apresentação do primeiro volume, em 1976, o então presidente da CMSP, Carlos Eduardo Sampaio Dória, declarou: “Aureliano Leite supera-se nesta obra. Apresenta algo realmente primoroso, a começar do primeiro capítulo, quando busca as origens dos municípios. Apresenta-o depois sob o ponto de vista jurídico, como herança da civilização romana, princípio de autoridade, de governo que antecede ao próprio Estado”.
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Sampaio Dória atestou a precisão histórica do livro: “Trabalho excepcional de pesquisa, com informações colhidas nas fontes mais seguras: as atas da Câmara Municipal e documentos originais nos arquivos da Prefeitura”.
No dia 4 de dezembro de 1976, aos 90 anos, Aureliano Leite morreu em São Paulo. Nas últimas linhas de suas memórias, deixou escrito: “Enfim, o mundo não me parece tão ruim como se diz, nem a vida, repito, me foi totalmente vazia e inútil”.
“Enfim, o mundo não me parece tão ruim como se diz, nem a vida, repito, me foi totalmente vazia e inútil” Aureliano Leite
Com certeza, a vida do escritor não foi nem vazia, nem inútil. Além dos livros que escreveu, deixou sua biblioteca à disposição dos paulistanos. “Aureliano Leite escolheu a Câmara Municipal de São Paulo para ter a segurança de que suas obras seguiriam o destino de todas os livros: ser de acesso a todos”, diz Thaís Rocha.
Esse patrimônio paulistano pode ser consultado de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h30, na Biblioteca da Câmara (Viaduto Jacareí, 100, 2º andar, Bela Vista).
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Edição: Sândor Vasconcelos sandor@saopaulo.sp.leg.br
Saiba mais
Vídeos
- Seminário Os 50 anos da Doação do Acervo de Aureliano Leite à Biblioteca da CMSP (1974-2024)
- Programa Legislativo do Futuro: Acervo Aureliano Leite
- Seminário marca os 50 anos da doação do acervo de Aureliano Leite para a Câmara de SP
Textos
- Reportagem do Portal da Câmara: Seminário marca os 50 anos da doação do acervo de Aureliano Leite para a Câmara de SP
- Monografia Acervo Aureliano Leite: vida e obra de um mineiro paulista pelas estantes de seu acervo, de Iolanda Lima Pereira e Juliana Alegro Silva.