{"id":11367,"date":"2018-07-04T17:45:41","date_gmt":"2018-07-04T20:45:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/?p=11367"},"modified":"2021-09-22T14:42:22","modified_gmt":"2021-09-22T17:42:22","slug":"o-primeiro-presidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/o-primeiro-presidente\/","title":{"rendered":"O primeiro presidente"},"content":{"rendered":"<span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 9<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><p><strong>Rodrigo Garcia<\/strong> | rodrigogarcia@saopaulo.sp.leg.br<\/p>\n<h6><strong>Publicada originalmente em jul\/2018<\/strong><\/h6>\n<p>Um sobrenome de origem francesa passou a ser o primeiro nome de v\u00e1rios meninos em S\u00e3o Paulo por conta do prest\u00edgio do pol\u00edtico Jos\u00e9 Adriano Marrey Junior. Muitos de seus eleitores resolveram homenagear o parlamentar, que tamb\u00e9m foi advogado e gr\u00e3o-mestre da Ma\u00e7onaria, batizando os filhos como Marrey.<\/p>\n<p>Suas qualidades chamavam a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 de quem n\u00e3o o conhecia pessoalmente. Foi o caso de Monteiro Lobato. Em 1941, o escritor estava preso por fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura de Get\u00falio Vargas, quando enviou uma carta ao pol\u00edtico, dizendo-lhe que seu nome era unanimidade entre os presos da Casa de Deten\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 um advogado sobre cuja honestidade e valor os grandes e verdadeiros ju\u00edzes dos advogados, que s\u00e3o os presos, juram a p\u00e9s juntos: Marrey Junior\u201d, escreveu Lobato. \u201c\u00c9 estudioso, \u00e9 o que melhor analisa e argumenta.\u201d<\/p>\n<p>Marrey Junior nasceu em Itamarandiba (MG), em 7 de agosto de 1885, numa fam\u00edlia de pol\u00edticos. Seu pai, Jos\u00e9 Adriano Marrey, franc\u00eas naturalizado brasileiro, foi vereador em Itamarandiba e prefeito de Te\u00f3filo Otoni (MG). O av\u00f4 Jean-Claude Marrey ocupou o posto de prefeito em Moncey, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n<!-- iframe plugin v.6.0 wordpress.org\/plugins\/iframe\/ -->\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/wp-content\/uploads\/apartes\/info-marrey\/marrey_mobile.html\" width=\"100%\" height=\"480vh\" frameborder=\"0\" scrolling=\"yes\" class=\"iframe-class\"><\/iframe>\n<\/div>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n<!-- iframe plugin v.6.0 wordpress.org\/plugins\/iframe\/ -->\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/wp-content\/uploads\/apartes\/info-marrey\/marrey_desktop.html\" width=\"100%\" height=\"900px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"yes\" class=\"iframe-class\"><\/iframe>\n<\/div>\n<p>Aos 13 anos, Marrey Junior chegou a S\u00e3o Paulo para estudar. Foi vendedor de leite e, mais tarde, redator do jornal <em>O Commercio<\/em>. Formou-se na Faculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco, que hoje faz parte da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 1906. Seis anos depois, j\u00e1 era juiz de paz do Distrito de Santa Efig\u00eania, na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, eleito pelo povo.<\/p>\n\n\n[aesop_quote type=&#8221;block&#8221; background=&#8221;#ffffff&#8221; text=&#8221;#ffffff&#8221; align=&#8221;right&#8221; size=&#8221;1&#8243; quote=&#8221;\u201cH\u00e1 um advogado sobre cuja honestidade e valor os grandes e verdadeiros ju\u00edzes dos advogados, que s\u00e3o os presos, juram a p\u00e9s juntos: Marrey Junior\u201d&#8221; cite=&#8221;Monteiro Lobato&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p>Com 1.523 votos, Marrey Junior elegeu-se vereador pela primeira vez em 1914. Na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo (CMSP), apoiou a primeira greve geral realizada na cidade. \u201cA vida est\u00e1 se tornando dific\u00edlima, principalmente aos oper\u00e1rios\u201d, afirmou na Tribuna do Palacete Prates (ent\u00e3o sede da C\u00e2mara), em 16 de julho de 1917. \u201c\u00c9 preciso p\u00f4r limites ao desejo insaci\u00e1vel dos que est\u00e3o e querem continuar a usufruir a situa\u00e7\u00e3o, em detrimento dos mais fracos\u201d, completou na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o formada por tr\u00eas vereadores se juntou ao prefeito e ex-vereador <a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-12-jan-fev2015\/rei-da-fuzarca-e-dos-votos\">Washington Lu\u00eds<\/a> para negociar com o governo do Estado uma solu\u00e7\u00e3o para a crise. \u201cAqui tamb\u00e9m ecoa o grito dos que sofrem\u201d, proclamou Marrey. Ap\u00f3s o fim da paralisa\u00e7\u00e3o, ele foi advogado de defesa de um dos l\u00edderes grevistas, o gr\u00e1fico e jornalista Edgard Leuenroth (conhe\u00e7a melhor essa hist\u00f3ria no boxe abaixo).<\/p>\n[aesop_content color=&#8221;#3e3e3e&#8221; background=&#8221;#ffffff&#8221; width=&#8221;80%&#8221; columns=&#8221;1&#8243; position=&#8221;none&#8221; imgrepeat=&#8221;no-repeat&#8221; disable_bgshading=&#8221;off&#8221; floaterposition=&#8221;left&#8221; floaterdirection=&#8221;up&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<h3 style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #800000\">Uma das maiores greves do Pa\u00eds<\/span><\/h3>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/edgard_1920x11335.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p class=\"legenda\">Ficha policial de Edgard Leuenroth, um dos l\u00edderes da greve e acusado de ser<br \/>\n\u201cautor ps\u00edquico-intelectual\u201d de saques a ve\u00edculos que transportam farinha de trigo<br \/>\n<i>Arquivo Edgard Leuenroth\/Unicamp<\/i><\/p>\n<p>Em 9 de julho de 1917, o sapateiro espanhol Jos\u00e9 Martinez, de 21 anos, participava de uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 f\u00e1brica Mariangela, no Br\u00e1s (zona leste de S\u00e3o Paulo), em apoio \u00e0 greve dos oper\u00e1rios, que exigiam melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Foi morto a bala por soldados da For\u00e7a P\u00fablica (antecessora da Pol\u00edcia Militar). O enterro foi tr\u00eas dias depois, com a presen\u00e7a de mais de 10 mil pessoas, maior manifesta\u00e7\u00e3o de massa at\u00e9 ent\u00e3o em S\u00e3o Paulo. A multid\u00e3o, acompanhando o corpo, saiu do Br\u00e1s, passou pelo Centro, pegou a Rua da Consola\u00e7\u00e3o e depois a Avenida Municipal (atual Avenida Doutor Arnaldo) at\u00e9 o Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1, onde Martinez foi sepultado. As pessoas caminharam 7 quil\u00f4metros \u201csob um sil\u00eancio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advert\u00eancia\u201d, narra Edgar Leuenroth, um dos l\u00edderes dos grevistas, em carta enviada ao jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em> em 27 de mar\u00e7o de 1966. Mas o barulho logo tomou conta da cidade. Nos dias seguintes a manifesta\u00e7\u00e3o ampliou-se. Os grevistas incendiaram bondes, atacaram ve\u00edculos que transportavam farinha de trigo e ergueram barricadas. Ind\u00fastria, com\u00e9rcio e transporte urbano pararam. As autoridades reagiram com mais viol\u00eancia. O professor Jacob Penteado escreveu no livro <em>Belenzinho 1910: retrato de uma \u00e9poca<\/em>, que \u201cos cavalarianos (soldados da Cavalaria) subiam nas cal\u00e7adas, de sabre em punho, e atacavam at\u00e9 mulheres e crian\u00e7as, que estavam \u00e0 janela ou \u00e0 porta de suas casas. O clima era de intenso terror\u201d. At\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe ao certo o n\u00famero de mortos e feridos nos conflitos. Naqueles dias, circulou nas ruas e foi publicado pela imprensa o <em>Apelo aos soldados<\/em>, um panfleto, assinado por um grupo de mulheres grevistas, que conclamava as tropas do Ex\u00e9rcito a n\u00e3o agirem contra os oper\u00e1rios: \u201cOs grevistas s\u00e3o vossos irm\u00e3os na mis\u00e9ria e no sofrimento. Os grevistas morrem de fome, ao passo que os patr\u00f5es morrem de indigest\u00e3o. Soldados, recusai-vos o papel de carrasco\u201d. Com a intermedia\u00e7\u00e3o de donos de jornais, os empres\u00e1rios come\u00e7aram a negociar com os grevistas e houve acordo. As principais conquistas foram aumento salarial de 20%, liberta\u00e7\u00e3o dos presos, estabilidade no emprego e fim do trabalho infantil. Contudo, a sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria durou pouco. A infla\u00e7\u00e3o rapidamente acabou com o ganho salarial, v\u00e1rios l\u00edderes grevistas estrangeiros foram deportados e Leuenroth acabou preso, acusado de ser o \u201cautor ps\u00edquico-intelectual\u201d de saques a ve\u00edculos que levavam sacas de farinha de trigo. O vereador Marrey Junior foi um de seus advogados. Ap\u00f3s passar seis meses preso, Leuenroth foi absolvido. Para celebrar a greve de 1917, considerada uma das mais importantes da hist\u00f3ria do Brasil, e preservar a trajet\u00f3ria de lutas do sapateiro, a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo aprovou a lei 16.634\/2017, proposta por Antonio Donato (PT), que acrescentou ao Calend\u00e1rio Oficial o 9 de julho como o Dia da Luta Oper\u00e1ria.<\/p>\n[\/aesop_content]\n\n\n<p>Um de seus netos, o procurador de justi\u00e7a Luiz Ant\u00f4nio Marrey conta que o av\u00f4 buscava sempre atuar no lado da defesa. \u201cEle amassava barro para defender imigrantes italianos, indo ao Br\u00e1s em ruas que sequer eram asfaltadas\u201d, orgulha-se. \u201cTinha muita sensibilidade social.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ele, o av\u00f4, dono de uma mem\u00f3ria prodigiosa, era capaz de decorar muitas p\u00e1ginas de um processo para us\u00e1-las no momento oportuno, isso \u201cnuma \u00e9poca em que n\u00e3o havia nem xerox\u201d, ressalta.<\/p>\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/Netos_1280x656.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Quatro netos de Marrey se destacam na \u00e1rea jur\u00eddica: da esquerda para a direita, o advogado Pedro Marrey Junior, o desembargador aposentado Jos\u00e9 Adriano Marrey Neto, o desembargador Luiz Edmundo Marrey Uint e o procurador Luiz Ant\u00f4nio Marrey&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Quatro netos de Marrey se destacam na \u00e1rea jur\u00eddica: da esquerda para a direita, o advogado Pedro Marrey Junior, o desembargador aposentado Jos\u00e9 Adriano Marrey Neto, o desembargador Luiz Edmundo Marrey Uint e o procurador Luiz Ant\u00f4nio Marrey&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Como disse o escritor Menotti del Picchia, naqueles tempos \u201cas vedetes eram os advogados criminais: um j\u00fari sensacional representava uma festa para a cidade\u201d. De acordo com Del Picchia, Marrey \u201cera um argumentador persuasivo, senhor de fascinante capacidade de exposi\u00e7\u00e3o e l\u00f3gica\u201d, que \u201cimpunha respeito pela austeridade das maneiras\u201d.<\/p>\n<p>Luiz Ant\u00f4nio deixa claro, no entanto, que os embates com a Promotoria davam-se apenas nos tribunais. O neto se lembra que, em certa ocasi\u00e3o, ap\u00f3s um julgamento no interior de S\u00e3o Paulo, o av\u00f4 e o promotor voltavam no mesmo trem para a capital e pararam em uma esta\u00e7\u00e3o. \u201cMeu av\u00f4 prop\u00f4s dividirem um bilhete de loteria\u201d, conta. Tiveram sorte e ganharam o pr\u00eamio. O promotor fez uma viagem \u00e0 Europa e Marrey Junior comprou mais volumes para a sua biblioteca. \u201cOs dois aproveitaram bem o dinheiro\u201d, diz Luiz Ant\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n\n[aesop_video width=&#8221;90%&#8221; align=&#8221;center&#8221; src=&#8221;youtube&#8221; id=&#8221;gTDBsFsO-z0&#8243; disable_for_mobile=&#8221;on&#8221; loop=&#8221;off&#8221; autoplay=&#8221;off&#8221; controls=&#8221;on&#8221; viewstart=&#8221;off&#8221; viewend=&#8221;on&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p>Exibindo fotografias antigas, lembra hist\u00f3rias contadas pela fam\u00edlia e ressalta a simpatia do av\u00f4. \u201cNo bonde, cumprimentava todo mundo e todos falavam com ele. Gostava de ficar no meio do povo, a casa dele na Vila Mariana era cheia de gente\u201d. Lamenta, por\u00e9m, n\u00e3o ter conhecido melhor o av\u00f4, que morreu quando Luiz Ant\u00f4nio tinha apenas nove anos.<\/p>\n<h3><strong>\u201cLAMA, SANGUE, VERGONHA&#8230;\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel pela legisla\u00e7\u00e3o atual, mas legal na \u00e9poca, durante o ano de 1919 Marrey foi vereador e deputado estadual ao mesmo tempo, eleito pelo Partido Republicano Paulista (PRP).<\/p>\n<p>Insatisfeito com a aristocracia conservadora do Estado, cujos interesses eram representados pelo PRP, Marrey se uniu a outros pol\u00edticos, entre eles o conselheiro <a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-24-mar-jun2017\/no-24-perf-antonio-prado\">Antonio Prado<\/a>, ex-prefeito e ex-vereador de S\u00e3o Paulo, para fundar o Partido Democr\u00e1tico, em 1926.<\/p>\n<p>No Parlamento estadual, era o \u00fanico deputado do Partido Democr\u00e1tico e fazia oposi\u00e7\u00e3o ao presidente (governador) de S\u00e3o Paulo, Carlos de Campos, do PRP. \u00a0Em 1927 foi eleito para a C\u00e2mara Federal.<\/p>\n[aesop_gallery id=&#8221;11391&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n\n<p class=\"legenda\">Cartazes da campanha para o Congresso em 1927 mostram que o Partido Democr\u00e1tico combatia as pr\u00e1ticas de compra de voto usadas na Rep\u00fablica Velha<br \/>\n<i>Centro de Mem\u00f3ria Eleitoral do TRE-SP<\/i><\/p>\n<p>No ano seguinte, concorreu \u00e0 Prefeitura de S\u00e3o Paulo e foi derrotado por Jos\u00e9 Pires do Rio (PRP), reeleito. O <em>Di\u00e1rio Nacional<\/em>, ve\u00edculo do Partido Democr\u00e1tico, fundado e dirigido por Marrey Junior, denunciou fraudes. \u201cLama, sangue, vergonha&#8230;\u201d foi a manchete do jornal em 1\u00ba de novembro.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, em 1985, o ent\u00e3o deputado federal Pl\u00ednio de Arruda Sampaio disse que Marrey n\u00e3o teve sua elei\u00e7\u00e3o validada \u201cnos famigerados sistemas de reconhecimento das atas eleitorais, uma forma da Rep\u00fablica Velha para cassar aqueles que, eleitos pelo povo, n\u00e3o tinham o reconhecimento dos poderosos\u201d.<\/p>\n\n\n[aesop_quote type=&#8221;block&#8221; background=&#8221;#ffffff&#8221; text=&#8221;#ffffff&#8221; align=&#8221;left&#8221; size=&#8221;1&#8243; quote=&#8221;\u201cEra um argumentador persuasivo, senhor de fascinante capacidade de exposi\u00e7\u00e3o e l\u00f3gica. Impunha respeito pela austeridade das maneiras\u201d&#8221; cite=&#8221;Menotti del Picchia&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p>Marrey Junior tamb\u00e9m atuou politicamente na Ma\u00e7onaria. Em 1921, liderou uma dissid\u00eancia do Grande Oriente Estadual de S\u00e3o Paulo, associa\u00e7\u00e3o de lojas ma\u00e7\u00f4nicas, contra a organiza\u00e7\u00e3o nacional e criou o Grande Oriente de S\u00e3o Paulo, do qual foi gr\u00e3o-mestre at\u00e9 1942. Em diversas ocasi\u00f5es desse per\u00edodo, enfrentou persegui\u00e7\u00f5es \u00e0 Ma\u00e7onaria, pois o governo de Get\u00falio Vargas (1930 a 1945) a p\u00f4s na ilegalidade.<\/p>\n<h3><strong>JUSTI\u00c7A HIST\u00d3RICA<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s sua primeira passagem pela C\u00e2mara Federal (1927 a 1930), o pol\u00edtico retornou \u00e0 CMSP em 1936. Essa legislatura foi interrompida um ano depois por ordem de Vargas. Em 2013, Marrey Junior teve seu mandato restitu\u00eddo postumamente pela <a href=\"http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/iah\/fulltext\/resolucoescmsp\/RC2013.pdf\">resolu\u00e7\u00e3o 20\/2013<\/a> da C\u00e2mara Municipal, proposta pelos vereadores Natalini (PV), Juliana Cardoso (PT), Jos\u00e9 Police Neto (PSD) e M\u00e1rio Covas Neto (Podemos) e pelos ex-vereadores Rubens Calvo, La\u00e9rcio Benko, Ricardo Young, Jos\u00e9 Am\u00e9rico e Orlando Silva. A <a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-3-novembro2013\/no03-uma-correcao-na-historia\">decis\u00e3o<\/a> reconheceu \u201ccomo atos antidemocr\u00e1ticos e injustos a cassa\u00e7\u00e3o dos direitos pol\u00edticos de vereadores eleitos em 1937\u201d. Dois netos do vereador cassado receberam o<a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-5-janeiro-fevereiro2014\/no05-um-viva-a-democracia\"> diploma<\/a> em seu nome: Luiz Ant\u00f4nio e Luiz Edmundo Marrey Uint.<\/p>\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/Restituicao_1920x1080.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Acervo CMSP&#8221; alt=&#8221;Marrey teve o mandato de vereador cassado pelo Estado Novo e 76 anos depois os netos Luiz Antonio e Luiz Edmundo receberam dos ent\u00e3o vereadores Natalini, Jos\u00e9 Am\u00e9rico e Orlando Silva um diploma restituindo simbolicamente o cargo&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Marrey teve o mandato de vereador cassado pelo Estado Novo e 76 anos depois os netos Luiz Antonio e Luiz Edmundo receberam dos ent\u00e3o vereadores Natalini, Jos\u00e9 Am\u00e9rico e Orlando Silva um diploma restituindo simbolicamente o cargo&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n\n\n\n<p>No Legislativo, na Prefeitura (onde foi secret\u00e1rio de Neg\u00f3cios Internos e Jur\u00eddicos) e no governo do Estado, quando chefiou a Secretaria de Justi\u00e7a, Marrey deu aten\u00e7\u00e3o especial a mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Na Assembleia Legislativa, por exemplo, apresentou em 1921 um projeto para criar um Juizado de Menores (atual Vara da Juventude), que dava poderes aos ju\u00edzes para adotar um tr\u00e2mite mais r\u00e1pido nos processos envolvendo crian\u00e7as e adolescentes. Tr\u00eas anos depois, a proposta se tornou a <a href=\"https:\/\/www.al.sp.gov.br\/repositorio\/legislacao\/lei\/1924\/lei-2059-31.12.1924.html\">lei 2059\/1924<\/a>.<\/p>\n<h3><strong>PRESIDENTE P\u00c9-DE-MEIA<\/strong><\/h3>\n<p>De volta \u00e0 C\u00e2mara de Vereadores em 1948, Marrey Junior foi escolhido presidente da 1\u00aa Legislatura ap\u00f3s a reabertura pol\u00edtica. No cargo, destacou-se por instituir medidas de austeridade.<\/p>\n<p>Quando ia ao Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital federal, para tratar de quest\u00f5es municipais, fazia quest\u00e3o de pagar as despesas com recurso pr\u00f3prio. Proibiu a compra de um autom\u00f3vel que seria usado pela Presid\u00eancia e s\u00f3 permitia que vereados viajassem em miss\u00f5es oficiais quando eram muito necess\u00e1rias. Caso contr\u00e1rio, podiam viajar, mas sem gastos pagos pela C\u00e2mara. Por conta dessas medidas, ganhou o apelido de presidente p\u00e9-de-meia.<\/p>\n[aesop_video width=&#8221;100%&#8221; align=&#8221;center&#8221; src=&#8221;youtube&#8221; id=&#8221;v4najD-u0pc&#8221; disable_for_mobile=&#8221;on&#8221; loop=&#8221;off&#8221; autoplay=&#8221;on&#8221; controls=&#8221;on&#8221; viewstart=&#8221;on&#8221; viewend=&#8221;on&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p>Em outros cargos tamb\u00e9m demonstrava preocupa\u00e7\u00e3o com o dinheiro p\u00fablico. Em 1959, o ent\u00e3o vice-presidente da CMSP, Ermano Marchetti, lembrou em sess\u00e3o solene que, quando Marrey ocupava a Secretaria da Justi\u00e7a do Estado, nomeou um funcion\u00e1rio. Tempos depois, ap\u00f3s concluir que o nomeado n\u00e3o era adequando ao posto, demitiu-o e fez quest\u00e3o de devolver a quantia correspondente aos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, na Secretaria de Neg\u00f3cios Internos e Jur\u00eddicos da Prefeitura, verificou que havia sido feito um pagamento superior ao que fora determinado e ordenou que o excesso fosse devolvido ao Tesouro municipal. Exigiu que a devolu\u00e7\u00e3o fosse dividida, em partes iguais, por todos os funcion\u00e1rios envolvidos no pagamento indevido, at\u00e9 mesmo o diretor do Tesouro.\u00a0 \u201cMarrey Junior sabe dar li\u00e7\u00f5es de respeito a si mesmo, \u00e0 administra\u00e7\u00e3o e ao povo\u201d, resumiu Marchetti.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/Marrey-sozinho_792x1080.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; credit=&#8221;Centro de Mem\u00f3ria Eleitoral do TRE-SP&#8221; alt=&#8221;Em quase 80 anos, Marrey se destacou como vereador, deputado estadual e federal, secret\u00e1rio de Neg\u00f3cios Jur\u00eddicos e de Justi\u00e7a e gr\u00e3o-mestre da Ma\u00e7onaria&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Em quase 80 anos, Marrey se destacou como vereador, deputado estadual e federal, secret\u00e1rio de Neg\u00f3cios Jur\u00eddicos e de Justi\u00e7a e gr\u00e3o-mestre da Ma\u00e7onaria&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>No per\u00edodo em que ocupou a Presid\u00eancia da CMSP, liderou uma luta para que o prefeito de S\u00e3o Paulo voltasse a ser eleito pelo povo, e n\u00e3o indicado pelo governador. \u201cO que o povo exige \u00e9 apenas a entrega do Poder Executivo municipal a um homem de bem que se capacite do dever que a natureza do cargo lhe imp\u00f5e, de prover as suas necessidades essenciais\u201d, escreveu Marrey, em 1950, ao ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Eurico Gaspar Dutra. \u201cO prefeito de S\u00e3o Paulo precisa e deve ser um homem independente, que se submeta somente ao imperativo da Lei e do interesse geral\u201d, completou. A campanha foi vitoriosa e em 1953 os paulistanos elegeram <a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-8-junho-julho2014\/no08-perfil-janio-quadros\/\">J\u00e2nio Quadros<\/a> para prefeito.<\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/partido_democratico_opcao2_1920x1080.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Insatisfeitos com o Partido Republicano Paulista, Marrey Junior e outros dissidentes se uniram ao ex-prefeito Antonio Prado para fundar, em 1926, o Partido Democr\u00e1tico&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Marrey Junior foi um dos l\u00edderes na luta para que os paulistanos voltassem a eleger o prefeito, o que ocorreu novamente a partir de 1953&#8243; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Marrey Junior morreu em 14 de mar\u00e7o de 1965, aos 79 anos, em S\u00e3o Paulo. Nas comemora\u00e7\u00f5es de seu centen\u00e1rio, em 1985, o ent\u00e3o deputado federal Celso Pe\u00e7anha, que nos anos 1950 havia sido colega de Marrey no Parlamento federal, descreveu-o como uma pessoa de \u201cbom papo\u201d e um \u201cpol\u00edtico fino\u201d. <a href=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-23\/perfil-flavio-bierrenbach\">Flavio Bierrenbach<\/a>, na \u00e9poca deputado federal, disse na tribuna da C\u00e2mara dos Deputados que Marrey havia sido um dos grandes defensores da autonomia dos munic\u00edpios: \u201cO exerc\u00edcio da verean\u00e7a talvez fosse a atividade que mais lhe tenha agradado\u201d.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/07\/Povo_1920x1280.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; credit=&#8221;Acervo pessoal&#8221; alt=&#8221;Segundo o neto Luiz Ant\u00f4nio, o av\u00f4 gostava de estar no meio do povo: \u201cNo bonde, todo mundo falava com ele e a casa na Vila Mariana era cheia de gente\u201d&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Segundo o neto Luiz Ant\u00f4nio, o av\u00f4 gostava de estar no meio do povo: \u201cNo bonde, todo mundo falava com ele e a casa na Vila Mariana era cheia de gente\u201d&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<div data-post-id=\"162\" class=\"insert-page insert-page-162 \"><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 9<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><div style=\"margin-top: 85px;margin-bottom: 40px;padding: 0px 15px 0px 15px\">\n<h4 style=\"text-align: center !important\">Newsletter Apartes<\/h4>\n<center>Receba nossa newsletter em seu e-mail<\/center>\r\n<p><div class=\"tnp tnp-subscription \">\n<form method=\"post\" action=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-admin\/admin-ajax.php?action=tnp&amp;na=s\">\n<input type=\"hidden\" name=\"nlang\" value=\"\">\n<div class=\"tnp-field tnp-field-firstname\"><label for=\"tnp-1\">Nome<\/label>\n<input class=\"tnp-name\" type=\"text\" name=\"nn\" id=\"tnp-1\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-email\"><label for=\"tnp-2\">E-mail<\/label>\n<input class=\"tnp-email\" type=\"email\" name=\"ne\" id=\"tnp-2\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-button\" style=\"text-align: left\"><input class=\"tnp-submit\" type=\"submit\" value=\"Fazer cadastro\" style=\"\">\n<\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div style=\"font-size: .8em;text-align: center;padding: 0px 15px 20px 15px\"><b>J\u00e1 se cadastrou, mas n\u00e3o est\u00e1 recebendo a newsletter?<br \/>\n<\/b>Acesse sua caixa de spam ou lixo eletr\u00f4nico, selecione o e-mail e marque o remetente como confi\u00e1vel<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Garcia | rodrigogarcia@saopaulo.sp.leg.br Publicada originalmente em jul\/2018 Um sobrenome de origem francesa passou a ser o primeiro nome de v\u00e1rios meninos em S\u00e3o Paulo por conta do prest\u00edgio do pol\u00edtico Jos\u00e9 Adriano Marrey Junior. 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