{"id":100885,"date":"2026-07-21T16:29:08","date_gmt":"2026-07-21T19:29:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/?p=100885"},"modified":"2026-07-21T16:29:08","modified_gmt":"2026-07-21T19:29:08","slug":"marielle-franco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/marielle-franco\/","title":{"rendered":"Marielle: muitas"},"content":{"rendered":"<span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 14<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><p>Texto: Fausto Salvadori | <a href=\"mailto:fausto@saopaulo.sp.leg.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fausto@saopaulo.sp.leg.br<\/a><\/p>\n<p>\u201cSou for\u00e7a porque todas n\u00f3s somos\u201d, disse Marielle Franco em um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=n07ZQiQyRDU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">v\u00eddeo<\/a> da sua primeira e \u00fanica campanha pol\u00edtica, em 2016, quando foi eleita a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. Retomou essa afirma\u00e7\u00e3o no ano seguinte, em seu <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BnzP4I_xSUo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeiro discurso<\/a> na C\u00e2mara Municipal carioca. \u201cAcho que esse \u00e9 o lugar do Parlamento que a gente disputou tanto e do lema que a gente trata, do \u2018Eu sou porque n\u00f3s somos\u2019, e somos inclusive nas diferen\u00e7as\u201d, afirmou em sua estreia no p\u00falpito, usando um turbante colorido e um vestido sem mangas que contrastavam com os palet\u00f3s e gravatas que predominavam entre seus pares \u2014 a maioria homens e brancos.<\/p>\n<p>A mesma ideia tornou a aparecer em sua \u00faltima fala p\u00fablica, na noite de 14 de mar\u00e7o de 2018, durante um encontro com outras militantes feministas, na sede do Instituto Casa das Pretas, na Lapa, regi\u00e3o central, que Marielle encerrou lendo uma cita\u00e7\u00e3o da poeta estadunidense Audre Lorde \u2014 \u201cN\u00e3o sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas\u201d \u2014 e acrescentando, com o entusiasmo que era a marca de sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o sorriso largo com que encarava a vida: \u201cVamo que vamo! Vamo junto ocupar tudo!\u201d.<\/p>\n\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/marielle.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Marielle adotou a filosofia ubuntu: \u201cEu sou porque n\u00f3s somos\u201d | Cr\u00e9dito: M\u00eddia Ninja&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>O lema adotado por Marielle ao longo da sua breve e intensa trajet\u00f3ria provinha da filosofia ubuntu: \u201cEu sou porque voc\u00ea \u00e9\u201d. O ubuntu, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KaQSIvWV7wo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo reportagem da BBC<\/a>, foi criado pelos povos bantus, grupo \u00e9tnico da \u00c1frica subsaariana, \u00e0 qual pertencia a maioria dos africanos trazidos \u00e0 for\u00e7a para o Brasil como escravizados, e se espalhou pelo mundo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o do apartheid na \u00c1frica do Sul, em 1994, quando ganhou a fama de ter sido empregado pelos sul-africanos para ajudar a superar os traumas deixados pelo regime de segrega\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Eu sou porque voc\u00ea \u00e9. Parece uma ideia simples. E \u00e9. Mas que nem por isso deixa de ser desafiadora. O ubuntu nega um dos conceitos mais arraigados do senso comum ocidental: a no\u00e7\u00e3o de individualismo, que divide cada um de n\u00f3s em exist\u00eancias obrigatoriamente separadas, quando n\u00e3o opostas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais. \u201cA filosofia ubuntu, que fala do debate da negritude, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que ultrapassa o personalismo, no qual o lugar fundamental \u00e9 o da <em>res publica<\/em> [coisa p\u00fablica], e o lugar da coletividade, de trabalhar e pensar no outro, para o outro, com o outro\u201d, explicou a vereadora naquele mesmo discurso de posse de 15 de fevereiro de 2017.<\/p>\n\n[aesop_quote  type=&#8221;block&#8221; background=&#8221;#282828&#8243; text=&#8221;#ffffff&#8221; align=&#8221;right&#8221; size=&#8221;1&#8243; quote=&#8221;\u201cSou for\u00e7a porque todas n\u00f3s somos\u201d&#8221; cite=&#8221;Marielle Franco&#8221; revealfx=&#8221;inplace&#8221;]\n<p>Adotado por Marielle como um norte ao longo de sua vida, o ubuntu pode ser lido como uma chave para compreender a sua trajet\u00f3ria, em que s\u00f3 foi poss\u00edvel a ela ser o que foi, com a for\u00e7a e o brilho com que durou, porque refletia as dores, os sonhos e as lutas de muitas. Se foi assim com a vida de Marielle, o mesmo se deu com sua morte, sentida e vivida n\u00e3o como o assassinato de um \u00fanico indiv\u00edduo, mas como uma trag\u00e9dia coletiva. E que por isso despertou a mobiliza\u00e7\u00e3o de multid\u00f5es, tanto para exigir a puni\u00e7\u00e3o dos culpados, como para garantir que a luta de Marielle n\u00e3o morresse com ela, mas se transformasse em semente de muitas outras a\u00e7\u00f5es. Uma das quais foi plantada na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo (CMSP), que desde 2024 promove o Pr\u00eamio Marielle Franco de Direitos Humanos.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>Projeto da favela<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<p>Para Marielle ser, foi preciso que outras e outros tivessem sido antes dela. A sua chegada \u00e0 pol\u00edtica significou o resultado e a continuidade dos esfor\u00e7os em busca da inclus\u00e3o que h\u00e1 tempos vinham sendo travados pelos movimentos negros das favelas. \u201cMarielle foi um projeto nosso\u201d, definiu o ge\u00f3grafo Louren\u00e7o Cezar da Silva, ativista do complexo de favelas da Mar\u00e9, em<a href=\"https:\/\/ponte.org\/marielle-sobrenome-favela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> entrevista<\/a> \u00e0 Ponte Jornalismo, referindo-se ao cursinho pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio criado pelo Centro de Estudos e A\u00e7\u00f5es Solid\u00e1rias da Mar\u00e9 (CEASM), ONG de grande impacto na juventude local, e que inclu\u00eda, entre os alunos da sua primeira turma, em 1998, a jovem Marielle Franco, ent\u00e3o com 18 anos. \u201cA forma\u00e7\u00e3o que a gente tem at\u00e9 hoje \u00e9 pra ocupar esse lugar que ela ocupou. A gente j\u00e1 estava pensando em novos quadros para ocupar outros espa\u00e7os.\u201d<\/p>\n<p>Repetindo o destino de muitas outras adolescentes da favela, Marielle engravidou e teve de deixar os estudos para cuidar da filha, Luyara. Em 2000, apesar das dificuldades, conseguiu voltar para o cursinho. \u201cN\u00e3o fugindo da estat\u00edstica num primeiro momento, mas depois fugindo\u201d, como ela <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=za2S4zRpQm8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dizia<\/a>. Gra\u00e7as ao cursinho da Mar\u00e9, ingressou em 2002, com bolsa integral, no curso de Ci\u00eancias Sociais da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).<\/p>\n\n\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/Linha-do-Tempo.png&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;1000px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; caption=&#8221;Cr\u00e9dito: Daniel Pimentel&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n<p>Nascida e criada na Mar\u00e9, Marielle desde sempre teve de enfrentar a pobreza e a viol\u00eancia. Diante da casa onde vivia com a m\u00e3e (Marinete), o pai (Antonio) e a irm\u00e3 (Anielle), seis anos mais nova, passava uma vala de esgoto a c\u00e9u aberto. Come\u00e7ou a trabalhar com 11 anos, primeiro como camel\u00f4 e depois como assistente de creche. O sal\u00e1rio era usado para pagar as escolas dela e a da irm\u00e3, de quem ajudou a cuidar desde cedo, levando e buscando no col\u00e9gio e participando das reuni\u00f5es escolares, sempre que a dif\u00edcil rotina de trabalhador dos seus pais os impedia de estarem presentes.<\/p>\n<p>\u201cEra uma menina cuidando de outra. Mas, para mim, voc\u00ea era a Mulher-Maravilha. Principalmente quando a gente tinha que se proteger de tiroteio na favela. Voc\u00ea me abra\u00e7ava assim que ouvia os tiros, como se fosse meu escudo\u201d, escreveu Anielle em um di\u00e1rio dirigido a Marielle, posteriormente publicado em forma de livro, com o nome <em>Minha irm\u00e3 e eu<\/em>.<\/p>\n<p>Nascida Marielle Francisco da Silva, irritou-se com o bullying que sofria na escola por causa do sobrenome masculino e passou a adotar, por conta pr\u00f3pria, o sobrenome Franco. Festeira, adorava funk e atuou como dan\u00e7arina na cobi\u00e7ada fun\u00e7\u00e3o de Garota Furac\u00e3o 2000. Era tamb\u00e9m muito cat\u00f3lica, de fazer crisma e dar aula de catequese (\u201cprimeiro reza o ter\u00e7o, depois dan\u00e7a o funk\u201d era um lema dentro de casa). E foi numa viagem organizada por jovens da igreja que frequentava, na Par\u00f3quia Nossa Senhora dos Navegantes, ali na Mar\u00e9, que em 2004 conheceu uma outra moradora da favela, Monica Benicio, ent\u00e3o com 18 anos. N\u00e3o demorou e as duas se apaixonaram \u2014 para a surpresa de ambas, que nunca haviam vivido um relacionamento amoroso com outra mulher.<\/p>\n<p>O come\u00e7o do namoro foi dif\u00edcil para elas, que passaram a sofrer ataques preconceituosos de familiares e amigos dos dois lados. Acabaram rompendo em 2006, mas continuaram a se relacionar pelos anos seguintes, entre idas e vindas, at\u00e9 decidirem retomar de vez o relacionamento em 2013. Foram morar juntas em um apartamento na Tijuca, zona norte, em 2017, e pretendiam se casar em 2019. Um dos muitos planos de Marielle que acabariam interrompidos.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>Carreira pol\u00edtica<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<p>Se eu sou porque voc\u00ea \u00e9, o que acontece quando voc\u00ea deixa de ser? E deixa de ser justamente por causa de pol\u00edticas p\u00fablicas que excluem e matam? Marielle teve que buscar essa resposta ao perder uma amiga do tempo de cursinho, a estudante de economia Jaqueline, baleada durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Mar\u00e9. Decidiu abra\u00e7ar a milit\u00e2ncia pelos direitos humanos, que a levaria para a pol\u00edtica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Seu padrinho foi Marcelo Freixo, que havia sido professor de sua irm\u00e3 no cursinho do CEASM e que, em 2006, lan\u00e7ou-se candidato a deputado estadual pelo PSOL. Marielle integrou um grupo na Mar\u00e9 que fez campanha para Freixo e apresentou propostas da favela para serem incorporadas pelo candidato. Com Freixo eleito, o grupo deveria escolher um de seus membros para trabalhar na assessoria do deputado e n\u00e3o teve d\u00favidas: indicou o nome de Marielle.<\/p>\n\n\n\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/debate.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;850px&#8221; credit=&#8221;Marielle Franco durante debate em 2016 | Cr\u00e9dito: Marcelo Freixo&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do mandato de Freixo incomodou diversos setores pol\u00edticos e criminosos poderosos na \u00e9poca, ao presidir a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) das Mil\u00edcias, que indiciou 225 pessoas. Como assessora parlamentar, Marielle coordenou a Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na qual prestou aux\u00edlio jur\u00eddico e psicol\u00f3gico a v\u00edtimas de viol\u00eancia, tanto do Estado, quanto dos pr\u00f3prios policiais \u2014 por entender que parte deles tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima de viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marielle levou seu olhar cr\u00edtico para a academia, ao cursar o mestrado em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica na Universidade Federal Fluminense (UFF). Defendeu, em 2014, a disserta\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/wikifavelas.com.br\/index.php\/UPP_%E2%80%93_a_redu%C3%A7%C3%A3o_da_favela_a_tr%C3%AAs_letras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">UPP: A Redu\u00e7\u00e3o da Favela a Tr\u00eas Letras<\/a>. Enquanto muitos ainda viam as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora como uma pol\u00edtica promissora de ocupa\u00e7\u00e3o pelo Estado de \u00e1reas antes dominadas pelos grupos criminosos armados, Marielle denunciou que \u201ctal ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 do conjunto do Estado, com direitos, servi\u00e7os, investimentos, e muito menos com instrumentos de participa\u00e7\u00e3o\u201d, mas apenas uma ocupa\u00e7\u00e3o policial e militarista, refor\u00e7ando a mesma velha pol\u00edtica de \u201cinvestida aos pobres, com repress\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dez anos trabalhando com Freixo, Marielle aceitou a proposta do partido de se lan\u00e7ar candidata a vereadora, em 2016. Na campanha, adotou a hashtag #eusouporquenossomos e se apresentava dizendo: \u201cEu sou Marielle Franco: mulher, negra, m\u00e3e, da favela\u201d. Ao mesmo tempo em que se definia, descrevia milhares de outras como ela. A campanha deu certo.<\/p>\n<p>Sua vit\u00f3ria desafiou v\u00e1rias estat\u00edsticas: tornou-se a \u00fanica vereadora negra daquela legislatura, e a terceira em toda a hist\u00f3ria da C\u00e2mara Municipal carioca. Fora do Rio, tamb\u00e9m havia poucas como ela: dos 811 vereadores eleitos nas capitais naquele ano, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-43424088\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apenas 32<\/a> eram mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/monumento-marielle.png&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;300px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; caption=&#8221;Est\u00e1tua de Marielle no Buraco do Lume, na Pra\u00e7a Mario Lago, na regi\u00e3o central do Rio de Janeiro | Cr\u00e9dito: Mwaldeck&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Os direitos humanos estiveram no centro da sua aten\u00e7\u00e3o parlamentar, em v\u00e1rias frentes. Entre seus projetos, estavam o Espa\u00e7o Coruja, estruturado para atender crian\u00e7as cujos respons\u00e1veis trabalham ou estudam durante a noite; o Dossi\u00ea Mulher Carioca, que determinava a sistematiza\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas pelos \u00f3rg\u00e3os municipais para embasar a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s mulheres; e a obrigatoriedade de fixa\u00e7\u00e3o de cartazes em unidades de sa\u00fade com diretrizes sobre o atendimento a v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual, entre outros.<\/p>\n<p>Todos eram bem recebidos em seu gabinete. Pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua podiam contar com escuta e um prato de comida. \u201cTinha sempre comida na geladeira do gabinete. Ela dizia \u2018eu n\u00e3o vou chamar um irm\u00e3o preto meu de mano, mana, se meu est\u00f4mago est\u00e1 cheio e o dele n\u00e3o t\u00e1&#8217;\u201d, contou Dayana Gusm\u00e3o, militante da Frente L\u00e9sbica e colega de Marielle, em entrevista \u00e0 Ponte.<\/p>\n<p>As falas daquela mulher negra e altiva no p\u00falpito da C\u00e2mara chamavam a aten\u00e7\u00e3o. \u201cA minha palavra \u00e9 palavra de mulher, mas vale. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 palavra de homem que vale, n\u00e3o\u201d, declarou em uma de suas interven\u00e7\u00f5es. Um momento marcante foi o discurso que proferiu em 8 de mar\u00e7o de 2018, Dia da Mulher, escrito em parceria com a irm\u00e3, Anielle, e que come\u00e7ava assim: \u201cO que \u00e9 ser mulher? O que cada uma de n\u00f3s j\u00e1 deixou de fazer ou fez com algum n\u00edvel de dificuldade pela identidade de g\u00eanero, pelo fato de ser mulher?\u201d.<\/p>\n[aesop_quote  type=&#8221;block&#8221; background=&#8221;#282828&#8243; text=&#8221;#ffffff&#8221; align=&#8221;left&#8221; size=&#8221;1&#8243; quote=&#8221;&#034;A minha palavra \u00e9 palavra de mulher, mas vale. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 palavra de homem que vale, n\u00e3o&#034;&#8221; revealfx=&#8221;inplace&#8221;]\n<p>A cena viralizou, contudo, n\u00e3o tanto pelo que estava escrito no papel, mas pelo que Marielle teve de improvisar ao ser interrompida. Sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a fala de Marielle, um homem na galeria gritou \u201cViva Ustra\u201d, referindo-se a Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante da repress\u00e3o durante a ditadura que se tornou o primeiro militar reconhecido como torturador pela Justi\u00e7a brasileira. A resposta de Marielle tornou-se ic\u00f4nica: \u201cN\u00e3o serei interrompida. N\u00e3o aturo interrup\u00e7\u00e3o dos vereadores desta Casa. N\u00e3o aturarei de um cidad\u00e3o que vem aqui e n\u00e3o sabe ouvir a posi\u00e7\u00e3o de uma mulher eleita\u201d.<\/p>\n<p>Como vereadora, Marielle presidiu a Comiss\u00e3o de Defesa da Mulher e fez parte da comiss\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal institu\u00edda para acompanhar a Interven\u00e7\u00e3o Federal na Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado do Rio de Janeiro, decretada no in\u00edcio de 2018 pelo ent\u00e3o presidente Michel Temer e comandada pelo general Walter Braga Netto \u2014 o mesmo que, seis anos depois, seria preso e condenado por participa\u00e7\u00e3o em uma tentativa de golpe de Estado.<\/p>\n<p>As viol\u00eancias praticadas pelas for\u00e7as policiais contra a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre das favelas eram um tema constante de sua atua\u00e7\u00e3o. \u201cQuantos mais v\u00e3o precisar morrer para essa guerra acabar?\u201d, <a href=\"https:\/\/x.com\/mariellefranco\/status\/973568966403731456\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu<\/a>, a respeito da morte de um jovem negro pela PM, em 13 de mar\u00e7o de 2018. Um dia depois, ela pr\u00f3pria se tornaria uma v\u00edtima dessa guerra.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>As muitas mortes de uma mulher<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<p>O encontro Jovens Negras Movendo as Estruturas, que Marielle mediou na Casa das Pretas, na noite de 14 de mar\u00e7o, foi um evento em que ela mais ouviu do que falou. Numa de suas interven\u00e7\u00f5es, se disse feliz com a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de vida, sempre lembrando que fazia parte de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva: \u201cQuando hoje eu estou nesse campo, fico muito feliz com a minha trajet\u00f3ria e minha constru\u00e7\u00e3o de vida, que n\u00e3o pode ser s\u00f3 uma constru\u00e7\u00e3o individual, vir muito antes desse um ano e alguns meses de mandato\u2026 \u00e9 porque nossos passos v\u00eam de longe mesmo\u201d. E lembrou das vereadoras negras que vieram antes dela: \u201cNa C\u00e2mara, antes de a gente entrar, foram dez anos antes com a Jurema [Batista]. E dez anos antes da Jurema, a Benedita [da Silva]. A gente n\u00e3o pode esperar mais dez anos ou achar que eu estarei ali por dez anos.\u201d<\/p>\n<p>Era um reconhecimento aos que vieram antes dela, mas tamb\u00e9m uma den\u00fancia da falta de representatividade do sistema pol\u00edtico, que parecia ser capaz de se abrir para permitir a chegada de somente uma mulher negra por vez entre os parlamentares cariocas. Por outro lado, ao falar em \u201cn\u00e3o estar aqui nos pr\u00f3ximos dez anos\u201d, soava tristemente prof\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceria dali a pouco.<\/p>\n<p>Marielle deixou o debate pouco depois das 21h, no carro dirigido pelo motorista Anderson Gomes, acompanhada por uma assessora, a jornalista Fernanda Chaves. Tinha enviado h\u00e1 pouco uma mensagem para a esposa, Monica, que estava gripada, dizendo: \u201cVou o mais r\u00e1pido para cuidar de voc\u00ea\u201d.<\/p>\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/mural-1.png&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;600px&#8221; credit=&#8221;Escadaria pintada com o rosto de Marielle Franco, em S\u00e3o Paulo | Cr\u00e9dito: Parzeu&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>A tr\u00eas quil\u00f4metros dali, um outro carro emparelhou com o da vereadora e disparou uma sequ\u00eancia de tiros. A assessora escapou, mas quatro disparos atingiram Marielle na cabe\u00e7a e outros tr\u00eas acertaram as costas do motorista. Os dois morreram na hora. Anderson tinha 39 anos e era pai de um beb\u00ea de um ano e oito meses.<\/p>\n<p>Em seu di\u00e1rio, Anielle descreveu o encontro com a irm\u00e3 na cena do crime: \u201cSua bolsa azul e seus \u00f3culos estavam no ch\u00e3o. Sua m\u00e3o estava para fora do carro. Seu sangue, <em>nosso sangue<\/em>, pingava no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As mortes de Marielle e Anderson n\u00e3o foram uma exce\u00e7\u00e3o. \u201cEmbora o caso tenha recebido cobertura da m\u00eddia internacional, n\u00e3o foi um evento excepcional, mas sim parte de um fen\u00f4meno mundial: a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos pol\u00edticos por meio da execu\u00e7\u00e3o de advers\u00e1rios\u201d, afirma o estudo <a href=\"https:\/\/globalinitiative.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Angela-Alonso-et-al-Democracia-letal-Viole%CC%82ncia-poli%CC%81tica-letal-no-Brasil-GI-TOC-janeiro-de-2026.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Democracia Letal<\/em><\/a>, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e do Centro Brasileiro de Ana\u0301lise e Planejamento (Cebrap), que analisou os crimes contra pol\u00edticos e ativistas no Brasil entre 2003 e 2023. Em 20 anos, foram registrados 1.228 casos de viol\u00eancia pol\u00edtica letal no Pa\u00eds: 760 assassinatos, 358 tentativas de assassinato e 110 amea\u00e7as graves de morte. Cinco por m\u00eas, em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Se essas mortes faziam parte da paisagem da pol\u00edtica nacional, a mobiliza\u00e7\u00e3o que despertaram foi diferente de tudo. Como uma pessoa que reunia em si as caracter\u00edsticas de grupos que historicamente s\u00e3o alvo de \u00f3dio e repress\u00e3o, Marielle passou a simbolizar o rosto e o nome de todas essas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u201cTinha muitas camadas a Marielle. Foi v\u00edtima, por isso, de m\u00faltiplos assassinatos. Cada tiro atingiu uma pele. A pele da mulher negra. A pele da m\u00e3e. A pele da favelada. A pele da soci\u00f3loga. A pele da defensora dos direitos humanos. A pele da representante eleita para a C\u00e2mara Municipal de uma cidade tomada pela brutalidade e pelo medo. Marielle teve o corpo abatido. Sofreu morte f\u00edsica, mas tamb\u00e9m simb\u00f3lica. Numa s\u00f3 mulher, muitos significados\u201d, <a href=\"https:\/\/agenciapatriciagalvao.org.br\/violencia\/noticias-violencia\/multiplos-assassinatos-num-so-por-flavia-oliveira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu<\/a> a jornalista Fl\u00e1via Oliveira.<\/p>\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/senado.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; credit=&#8221;Proje\u00e7\u00e3o de imagem de Marielle Franco na c\u00fapula da C\u00e2mara dos Deputados, em 24\/7\/20 | Cr\u00e9dito: Roque de S\u00e1\/Ag\u00eancia Senado&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n<p>Protestos cobrando justi\u00e7a para Marielle e Anderson reuniram milhares de pessoas em diversas cidades. A cantora estadunidense Katy Perry homenageou Marielle e levou Anielle e Luyara para o palco em um show na Pra\u00e7a da Apoteose, quatro dias ap\u00f3s o crime. Roger Waters faria o mesmo no Maracan\u00e3, em 25 de outubro, levando tamb\u00e9m Monica Benicio e vestindo uma camiseta com a frase \u201cLute como Marielle Franco\u201d. Numa a\u00e7\u00e3o coordenada, em 14 de agosto a C\u00e2mara Municipal do Rio aprovou seis projetos de lei de autoria de Marielle. Placas de rua simb\u00f3licas com seu nome foram pregadas em diversos lugares, mas ela tamb\u00e9m virou nome de rua, real e oficial, em diversas cidades, inclusive Paris, na Fran\u00e7a, e Col\u00f4nia, na Alemanha. Recebeu uma placa em uma esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 em Buenos Aires, Argentina, e uma est\u00e1tua com o punho erguido no centro do Rio.<\/p>\n<p>Nem todas as rea\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, foram positivas. Mentiras e ofensas sobre a mem\u00f3ria de Marielle come\u00e7aram a circular horas ap\u00f3s sua morte. Apenas dois dias ap\u00f3s o crime, uma desembargadora <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2018\/03\/desembargadora-diz-que-marielle-estava-envolvida-com-bandidos-e-e-cadaver-comum.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">publicou<\/a> que a vereadora estava \u201cengajada com bandidos\u201d e que a como\u00e7\u00e3o com sua morte era \u201cmimimi da esquerda\u201d com um \u201ccad\u00e1ver comum\u201d (seis anos depois, ela seria condenada no Conselho Nacional de Justi\u00e7a pela declara\u00e7\u00e3o). Nas elei\u00e7\u00f5es, o gesto de rasgar placas com o nome da vereadora passou a ser repetido por candidatos. Era como uma tentativa de um segundo assassinato da vereadora, agora para destruir sua imagem.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>Sementes<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<p>Imune aos ataques, o legado de Marielle perdurou de muitas formas. Uma delas \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o de outras mulheres negras que se lan\u00e7aram na pol\u00edtica, inspiradas pelo exemplo dela e retratadas no document\u00e1rio <em>Sementes: Mulheres Pretas no Poder<\/em>. Em uma cena do filme, a deputada estadual Renata Souza, em resposta \u00e0 pergunta de uma TV espanhola se ela se considerava herdeira de Marielle, responde com um claro \u201cn\u00e3o\u201d, por entender que essa heran\u00e7a, como tudo o que diz respeito a Marielle, \u00e9 sempre coletiva. \u201cO que \u00e9 a Marielle \u00e9 grandioso demais para a gente pensar que uma vai carregar isso. S\u00e3o mulheres que t\u00eam que carregar isso. S\u00e3o mulheres negras que est\u00e3o na base da pir\u00e2mide social, da exclus\u00e3o, que precisam carregar isso com a gente.\u201d<\/p>\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/marielle-raizes.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Capa da hist\u00f3ria em quadrinhos \u201cRa\u00edzes\u201d, sobre Marielle | Cr\u00e9dito: Instituto Marielle Franco&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, a vereadora virou nome do Pr\u00eamio Marielle Franco de Direitos Humanos, nascido de um projeto de 2018 assinado pelos ent\u00e3o vereadores S\u00e2mia Bomfim, Celso Giannazi, Daniel Annenberg, Adriano Santos, Eduardo Matarazzo Suplicy, Elaine do Quilombo Perif\u00e9rico, Jussara Basso, Luana Alves e Professor Toninho Vespoli. O pr\u00eamio, concedido por uma comiss\u00e3o formada por entidades de direitos humanos, serve para \u201cvalorizar pessoas que atuam na promo\u00e7\u00e3o e defesa dos Direitos Humanos\u201d e \u201cvalorizar o combate a toda forma de preconceito ou viol\u00eancia, relacionados a quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia, origem ou condi\u00e7\u00e3o social, religi\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o sexual ou qualquer outro pretexto discriminat\u00f3rio\u201d, al\u00e9m de valorizar \u201ca experi\u00eancia na luta contra o racismo\u201d e a \u201cautonomia e lideran\u00e7a das mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Para relembrar Marielle, a premia\u00e7\u00e3o ocorre sempre em mar\u00e7o, m\u00eas em que ela foi arrancada da vida. Na primeira edi\u00e7\u00e3o do evento, em 2024, S\u00e2mia Bonfim, j\u00e1 como deputada federal, definiu a import\u00e2ncia da honraria, em entrevista \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Aagi8XKSAQA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">TV C\u00e2mara<\/a>: \u201cHomenagear essas mulheres \u00e9 fortalecer o legado de Marielle e reconhecer que tem muita gente que nem sempre tem espa\u00e7o institucional, mas que faz uma luta real\u201d.<\/p>\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/premio-marielle.png&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; credit=&#8221;Sess\u00e3o solene para entrega do Pr\u00eamio Marielle Franco, em 30\/3\/26 | Cr\u00e9dito: Gute Garbelotto \/ CMSP&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>\u2018Matar uma de n\u00f3s \u00e9 muito mais f\u00e1cil\u2019<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o reiterada do nome de Marielle e o cultivo permanente da sua mem\u00f3ria foi fundamental para garantir que o crime n\u00e3o fosse esquecido. Os interesses para sepultar a lembran\u00e7a de Marielle, junto com seu corpo, eram poderosos e inclu\u00edam at\u00e9 a c\u00fapula da Pol\u00edcia Civil, como depois ficou comprovado. Os autores do crime, dois ex-policiais militares que atuavam como pistoleiros, Ronnie Lessa e \u00c9lcio de Queiroz, foram presos pela Pol\u00edcia Civil em 2019, exatamente um ano ap\u00f3s os assassinatos, mas a investiga\u00e7\u00e3o parou a\u00ed, sem conseguir responder \u00e0 pergunta \u201cquem mandou matar Marielle e Anderson?\u201d.<\/p>\n<p>Os mandantes do crime foram aparecer somente em janeiro de 2024, quando os pistoleiros firmaram um acordo de dela\u00e7\u00e3o com a Pol\u00edcia Federal. Ap\u00f3s a homologa\u00e7\u00e3o do acordo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a PF prendeu tr\u00eas suspeitos pelo crime: o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Braz\u00e3o, o ex-deputado federal Chiquinho Braz\u00e3o, irm\u00e3o de Domingos, e o ex-chefe da Pol\u00edcia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa.<\/p>\n<p>Em outubro do mesmo ano, os matadores foram condenados no 4\u00ba Tribunal do J\u00fari do Rio: Ronnie Lessa, o autor dos disparos contra Marielle e Anderson, recebeu a pena de 78 anos e 9 meses de pris\u00e3o, enquanto \u00c9lcio Queiroz, que dirigiu o carro usado no atentado, recebeu 59 anos e 8 meses. &#8220;A justi\u00e7a por vezes \u00e9 lenta, \u00e9 cega, \u00e9 burra, \u00e9 injusta, \u00e9 errada, \u00e9 torta, mas ela chega. A justi\u00e7a chega para aqueles que, como os acusados, acham que jamais ser\u00e3o atingidos pela Justi\u00e7a&#8221;, disse a ju\u00edza L\u00facia Glioche na leitura da senten\u00e7a.<\/p>\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/familia.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; credit=&#8221;Fam\u00edlia de Marielle durante julgamento no STF: Antonio (pai), Anielle (irm\u00e3), Luyara (filha), Marinete (m\u00e3e), Monica (vi\u00fava) | Cr\u00e9dito: Valter Campanato \/ Ag\u00eancia Brasil&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>O relat\u00f3rio da PF apontou que os irm\u00e3os Braz\u00e3o atuavam como milicianos, explorando condom\u00ednios ilegais na zona oeste da capital fluminense, e teriam encomendado a morte de Marielle por conta da resist\u00eancia representada pela bancada do PSOL a um projeto de lei que regularizava essas \u00e1reas. Como os dois r\u00e9us tinham foro privilegiado, o julgamento foi parar no STF. Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma da Corte condenou os irm\u00e3os a 76 anos e 3 meses de pris\u00e3o cada um, por duplo homic\u00eddio, tentativa de homic\u00eddio (contra a assessora Fernanda Chaves) e organiza\u00e7\u00e3o criminosa armada. J\u00e1 Rivaldo Barbosa, pago pela mil\u00edcia para atrapalhar as investiga\u00e7\u00f5es, foi condenado a 18 anos de pris\u00e3o por obstru\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o passiva.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo ao final do julgamento na Primeira Turma, a ministra Carmen L\u00facia, \u00fanica mulher na Suprema Corte brasileira, despiu-se por alguns momentos da impessoalidade da toga de magistrada e, ao falar de Marielle, falou tamb\u00e9m de si pr\u00f3pria. \u201cSomos muito parecidas com os seres humanos, mas n\u00e3o temos a integridade de um reconhecimento pleno. Matar uma de n\u00f3s \u00e9 muito mais f\u00e1cil\u201d, denunciou a ministra.<\/p>\n<p>Logo depois, dirigindo-se diretamente \u00e0 m\u00e3e de Marielle, Carmen L\u00facia se lembrou da pr\u00f3pria m\u00e3e: \u201cDona Marinete, n\u00e3o acho que \u00e9 s\u00f3 sua filha. Estou falando como minha m\u00e3e tamb\u00e9m poderia dizer: \u00e9 muito mais f\u00e1cil me matar do que matar os outros tr\u00eas aqui\u201d, e nesse momento apontou para os outros membros da Primeira Turma, todos homens. \u201cPorque \u2018n\u00e3o vai acontecer nada\u2019. O que eles n\u00e3o sabiam \u00e9 que aconteceria\u201d, concluiu. Um raro momento em que uma ju\u00edza se identificou com a v\u00edtima e reconheceu que ambas faziam parte da mesma unidade, uma sendo porque todas eram. Ubuntu.<\/p>\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;http:\/\/www.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2026\/06\/placas-marielle.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;800px&#8221; credit=&#8221;Manifestantes posam segurando placas simb\u00f3licas com o nome de Marielle, em 14\/10\/18 | Cr\u00e9dito: Marcelo Freixo&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionsrc=&#8221;custom&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: S\u00e2ndor Vasconcelos | <u><a href=\"mailto:sandor@saopaulo.sp.leg.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sandor@saopaulo.sp.leg.br<\/a><\/u><\/p>\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><span style=\"color: #820101\"><b><strong>Saiba mais<\/strong><\/b><\/span><\/h3>\n<h5 style=\"background-color: #820101;padding-left: 10px;text-align: center\"><span style=\"color: #ffffff\"><strong><b>Livros<\/b><\/strong><\/span><\/h5>\n<p>ARA\u00daJO, Vera; OT\u00c1VIO, Chico.<strong> Mataram Marielle.<\/strong> Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2020.<\/p>\n<p>BENICIO, Monica. <strong>Marielle e Monica: uma hist\u00f3ria de amor e luta.<\/strong> Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2024.<\/p>\n<p>FRANCO, Anielle. <strong>Minha irm\u00e3 e eu: di\u00e1rio, mem\u00f3rias e conversas sobre Marielle. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil, 2022.<\/p>\n<p>FRANCO, Marielle. <strong>UPP: a redu\u00e7\u00e3o da favela a tr\u00eas letras. <\/strong>S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n<p><strong>Marielle Franco &#8211; Ra\u00edzes<\/strong>. Dispon\u00edvel em<a href=\"https:\/\/www.institutomariellefranco.org\/hq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> https:\/\/www.institutomariellefranco.org\/hq<\/a>.<\/p>\n<h5 style=\"background-color: #820101;padding-left: 10px;text-align: center\"><span style=\"color: #ffffff\"><strong><b>V\u00eddeos<\/b><\/strong><\/span><\/h5>\n<p><strong>Sementes: Mulheres pretas no poder. <\/strong>Dire\u00e7\u00e3o de \u00c9thel Oliveira e J\u00falia Mariano. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/embaubaplay.com\/catalogo\/sementes-mulheres-pretas-no-poder\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/embaubaplay.com\/catalogo\/sementes-mulheres-pretas-no-poder<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Marielle, o document\u00e1rio. <\/strong>Dire\u00e7\u00e3o de Caio Cavechini. Dispon\u00edvel na Globoplay.<\/p>\n<h5 style=\"background-color: #820101;padding-left: 10px;text-align: center\"><span style=\"color: #ffffff\"><strong><b>Site<\/b><\/strong><\/span><\/h5>\n<p><a href=\"https:\/\/www.institutomariellefranco.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instituto Marielle Franco<\/a><\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Fausto Salvadori | fausto@saopaulo.sp.leg.br \u201cSou for\u00e7a porque todas n\u00f3s somos\u201d, disse Marielle Franco em um v\u00eddeo da sua primeira e \u00fanica campanha pol\u00edtica, em 2016, quando foi eleita a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. 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