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Memórias da arena

Vereador paulistano de 1956 a 1969, Agenor Monaco conserva intactas as lembranças das batalhas vividas na política
Publicada originalmente na ed. 2 da revista Apartes – outubro/2013
Atualizada em agosto de 2018

Sândor Vasconcelos | sandor@saopaulo.sp.leg.br

“Se o saldo bancário e a ambição pessoal acompanharem o homem público, infelicitam o País”. Essa premissa básica, algumas vezes esquecida por alguns políticos, embasou os mandatos de Agenor Palmorino Monaco em seus 13 anos como vereador de São Paulo. Ouvir as histórias do ex-parlamentar, que aos 91 anos preserva uma memória privilegiada, é uma aula sobre a política na capital nas décadas de 50 e 60. Entre as muitas reveladas, há a do dia em que foi, por engano, alvo de uma tentativa de suborno e a de quando negou um pedido feito pessoalmente por Jânio Quadros.

Eleito vereador pela primeira vez em 1955, aos 28 anos, pelo Partido Social Trabalhista (PST) com 2.801 votos, reelegeu-se por mais duas vezes, em 1959 (4.380 votos) e em 1963 (3.843 votos). As duas reeleições disputou pelo PST, mas em 1966 filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), ano em que tentou o cargo de deputado estadual e ficou na suplência.

Em 1968 perdeu a eleição para vereador, fato que só seria lamentado “caso não fosse substituído por um homem de sua têmpera”. “Ficaria chorando de tristeza que meu lugar fosse ocupado por um malandro”, diz Monaco. Em 1986, tentou pela última vez eleger-se deputado estadual, pelo Partido Liberal (PL), mas não conseguiu.

O ingresso na vida pública foi graças ao irmão Bernini Monaco, que tinha formação integralista e chegou a ser preso pela polícia especial de Getúlio Vargas. “Ele me inoculou o germe da política”, revela Monaco, que confessa: “Mas eu senti que ele se arrependeu. Vinha à Câmara e ouvia os mais disparatados impropérios contra a minha pessoa”.

Os xingamentos, segundo o ex-vereador, deviam-se à postura combativa adotada em relação aos colegas. A pouca quantidade (de acordo com ele mesmo) de projetos de lei apresentados durante sua trajetória, 103 no total, deveu-se à preocupação de sempre se posicionar sobre iniciativas dos colegas. “Nada passava em branco, sem minha manifestação”, explica.

Uma das brigas compradas foi com relação às sessões extraordinárias aos sábados: “Tratávamos de meia dúzia de nomes de ruas, por não mais que uma hora, sem interesse público nenhum, só para aumentar a remuneração dos vereadores”, relembra. Tais sessões rendiam subsídio extra aos parlamentares. Os chamados jetons eram, na época, alvo de matérias jornalísticas. Em 13 de março de 1963, o jornal O Estado de S. Paulo publicou texto afirmando que a prática fora considerada ilegal pela Justiça.

Outro episódio marcante foi quando Jânio Quadros, político já influente na época (havia sido prefeito e vereador em São Paulo), procurou Agenor para convencê-lo a votar no seu candidato à presidência da Câmara. Quadros apresentou suas razões e a resposta foi muito simples: “O candidato para o qual o senhor está pedindo meu voto, o céu não aceita. O adversário dele, o inferno rejeita. Por isso votarei em branco”. Resignado, Jânio encerrou o assunto: “É muito difícil conversar com um homem de bem”.

O posicionamento combativo de Agenor rendeu-lhe notícias em jornal. O Estadão de 22 de outubro de 1961 trouxe a reportagem Apenas um vereador condenou ontem as propinas à imprensa, afirmando que somente Monaco havia criticado projeto de lei proposto pelas Comissões para que a Câmara pagasse aos jornalistas de impresso, rádio e TV que cobriam os trabalhos do Legislativo. O vereador definia o projeto como “ilegal, lesivo e nascido de interesses escusos”. Com a pressão de Monaco, do Sindicato dos Jornalistas, de outras entidades da área e de alguns veículos de imprensa, a proposta não foi aprovada.

Fidel da Mooca

Monaco nasceu em 23 de fevereiro de 1927, na pequena Rua Dr. Freire, no bairro paulistano da Mooca. Filho de Palmorino Monaco e Angelica Napoleoni, é o caçula dos sete filhos da família, de origem italiana.

Os primeiros anos escolares foram completados no bairro vizinho do Brás. Depois, fez o curso técnico de Contabilidade na Escola 30 de Outubro. O diploma de bacharel em Direito foi conquistado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se na turma 123, em 1954, ano do 4º centenário da cidade de São Paulo. Nos tempos da faculdade, a espessa barba rendeu-lhe o apelido de Fidel, alusão ao líder cubano Fidel Castro.

Na USP, foi aluno do jurista Miguel Reale, para quem o ex-aluno era “uma vocação inata para a filosofia”. Um dos maiores orgulhos na vida foi ter justamente fechado com média dez a matéria dada por Reale, Filosofia do Direito, façanha que “teve mais importância do que o diploma”, segundo Monaco. A admiração pelo antigo professor era tanta que Agenor fez questão de discursar na missa de sétimo dia de Reale, em 2006.

Após um namoro de 12 anos, casou-se em São Paulo, no dia 17 de julho de 1958, com Maria Antonia Zaza Daulizio Monaco, na Igreja Imaculada Conceição, na Bela Vista. Um dos convidados presenteou o casal com uma saraivada de bombas em frente à igreja, o que, segundo Agenor, fez com que os santos pulassem: “O vereador que fazia barulho no Plenário não poderia ter um casamento calmo”, brinca. A união gerou os filhos Agenor Jr., Maria Inez e José Eduardo. Em 2002, Maria Antonia faleceu.

Embora tenha sido eleito apenas em 1955, ingressou antes na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), como oficial de gabinete do então vereador Anselmo Farabulini Júnior. Certa vez, foi com o chefe a uma indústria do Brás fazer campanha política e ambos foram levados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Agenor apresentou os documentos, que foram retidos pelo delegado. Um grupo de vereadores foi apoiar Farabulini, mas nem se importou com o funcionário. “Eu já estava separado para ir preso”, conta, “mas o Farabulini disse que só sairia dali comigo junto”, lembra, aliviado.

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Em 1951, discursa no Theatro Municipal de São Paulo na formatura de técnico contábil
Em 1951, discursa no Theatro Municipal de São Paulo na formatura de técnico contábil

Crédito: Arquivo pessoal

À moda antiga

Agenor conta que as campanhas eleitorais eram feitas à base de distribuição de cédulas com o nome do candidato já preenchido. Precisavam apenas ser completadas com as informações do eleitor e depositadas na urna. Além disso, o convencimento pessoal, no corpo a corpo, era importante. A primeira candidatura contou com o apoio de Farabulini Júnior, segundo Monaco um mestre da política.

No dia da apuração, recebeu uma ligação às 3 horas da manhã, do amigo Álvaro Cardoso de Moura Júnior: “Agenor, parabéns!”. Sonolento e assustado, Monaco perguntou o motivo do cumprimento e escutou: “Você foi eleito! Não me diga que estava dormindo”. A contrapartida do novo vereador foi ferina: “É claro que estava, agora não durmo mais! Meu Deus, fui eleito vereador. Que foi que eu fiz?”. O fato é lembrado às gargalhadas.

Na época, a sede do Legislativo paulistano ficava no edifício conhecido como Palacete Prates, na Rua Líbero Badaró, no Centro, uma joia arquitetônica que, se dependesse da vontade de Agenor, teria sido tombada. Não havia gabinetes para os vereadores, apenas as salas de partidos. O PST de Monaco tinha uma sala embaixo da escada e somente um funcionário. Carro oficial apenas para membros da Mesa. “A Câmara tinha cadeiras especiais reservadas aos que portavam gravata”, lembra. “Eu sempre olhei para os desgravatados”, brinca o ex-vereador.

Reeleição a vereador

Como parlamentar, foi um dos responsáveis por tornar possível a finalização da obra do Palácio Anchieta, atual sede da Câmara paulistana. De 1966 a 1969, ano de inauguração do Palácio, o vereador lutou, como membro ou presidente da Comissão de Urbanismo, Obras e Serviços Públicos da Câmara, pela aprovação das verbas destinadas aos ajustes finais da nova sede.

Durante os mandatos, participou da Mesa Diretora como segundo-secretário e de comissões relacionadas a servidor público, indústria e comércio, urbanismo, obras e serviços públicos. Um de seus projetos de 1960, inimaginável para a concretada São Paulo atual, pretendia isentar de tributos os imóveis com mais de dois hectares localizados além de 10 km da Praça da Sé e utilizados na exploração agropecuária.

Além de ter participado da história política paulistana, o ex-parlamentar foi testemunha da retirada dos bondes e um dos primeiros passageiros da grande novidade em termos de transporte, o metrô. “Nas primeiras viagens, fui passageiro com somente mais uma pessoa no trem”, conta. “Acho que a turma ainda estava com medo de morrer que nem tatu embaixo da toca”, diverte-se. “Hoje não cabe mais ninguém!”

Das muitas histórias narradas com fala impecável e olhar vivo, uma das mais divertidas e ao mesmo tempo trágicas foi a do homem que tentou suborná-lo, por engano. Após ouvir a proposta, avisou ao cidadão que ali com eles estava um guarda-civil, testemunha do crime. Após um verdadeiro drama do “criminoso”, Agenor concluiu que ele era só o “carregador da mala”, mas não perdeu a oportunidade de passar um sermão: “Em nome da sua família e da sua própria dignidade, não se preze a isso. Lamento seu engano e sua provável demissão, por erro de endereço e de pessoa”.

Adeus à vida pública

A frustrada tentativa de permanecer vereador, em 1968, impediu Agenor de atuar na sede que ajudou a tornar realidade, pois o Palácio Anchieta foi inaugurado apenas em setembro de 1969. “O bom-bocado não é para quem faz, é para quem come”, brinca. Fez, também, com que o bacharel em Direito voltasse a atuar como advogado, ocupação que mantém até hoje: é ele quem acompanha pessoalmente os processos e visita os fóruns. Porém, não aceita novos clientes.

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Ao fundo, o Plenário do Palácio Anchieta, que o ex-vereador ajudou a tornar realidade
Ao fundo, o Plenário do Palácio Anchieta, que o ex-vereador ajudou a tornar realidade

Marcelo Ximenez/CMSP

Ao se despedir da política para nunca mais voltar, guardou as feridas de um período combativo. “Se não tivesse um coração de ferro, não teria sobrevivido”, diz, ao se referir às disputas políticas na época de vereador. Ficaram, também, as recordações da parte triste da atuação parlamentar: “Conheço alguns nomes que estão nas placas de rua que, se estas tivessem alma, ficariam ruborizadas de vergonha”, lamenta. “Conhecer por dentro a podridão dos plenários, dos gabinetes fechados, das negociatas e das escolhas nos jantares é muita infelicidade.”

A conduta rendeu-lhe, ainda, desconfiança. Em certa oportunidade, foi chamado ao Serviço Nacional de Informação (SNI), na Av. D. Pedro I, para prestar esclarecimento à Operação de Fiscalização das Declarações de Renda sobre seu patrimônio pessoal. “Poxa vida, não tenho nem o direito de ser pobre?”, indagou a um funcionário do órgão. A resposta veio direta: “Em oito anos como vereador e você só tem isso?”.

Hoje, de acordo com o filho Agenor Junior, o ex-vereador, aos 91 anos, “está com o coração meio comprometido pelo passar do tempo, mas ainda faz sua ginástica”. “Ele anda bem menos, dorme mais, tem episódios de pressão alta com mais frequência, mas continua com suas leituras, sobretudo pela madrugada, trocando o dia pela noite”, conta Junior.

Ainda acompanha a cena política pela “velha imprensa” e também um pouco pela nova comunicação digital, que ele pouco domina. Assiste às sessões do legislativo federal – Senado e Câmara – e à TV Justiça. A fé permanece inalterada: não perde a missa das 20h, aos domingos, na igreja em que se casou.

O saldo final de tantos anos na política foi o moral, que é o que vale de verdade para Monaco. E esse resultado rendeu-lhe grande admiração. Em um dos lançamentos de livro do ex-repórter do jornal Última Hora e escritor premiado Ignácio de Loyola Brandão, Monaco recebeu uma dedicatória que guarda como troféu: “Agenor Monaco, adorei te rever. Te admirava tanto. Sério. Íntegro. Viva!”.

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Orgulho: A dedicatória feita por Loyola Brandão, um dos troféus de Agenor
Orgulho: A dedicatória feita por Loyola Brandão, um dos troféus de Agenor

Equipe de Comunicação/CMSP

Plenário do Palacete Prates em 1969, último ano de Agenor como parlamentar – Arquivo CMSP

“Fui um bom aluno do povo”

“Não fui um delator, fui um constatador”
Crédito: Marcelo Ximenez/CMSP

Apartes: Qual político admirava na época de vereador?

Agenor Monaco: Prestes Maia (Francisco Prestes Maia, ex-prefeito de São Paulo). Ele é o precursor da moralidade democrática. Ninguém governa o Executivo com independência total, como fez Prestes Maia. Ele era, antes de tudo, um técnico; não arrasava politicamente ninguém e construía uma cidade. Conseguiu reforço de verbas federais para São Paulo, aproveitadas pelos seus sucessores.

O que mais o marcou na época como parlamentar?

Está distribuído em todos os dias. Fui um bom aluno do povo, mas o povo reprovou o bom aluno. Fui substituído.

E do que mais se orgulha?

A memória daqueles que me conheceram. Nos meus últimos dias de Câmara, um conhecido veio até mim e, chorando, disse: “Essa Casa não o merece. Em sua homenagem, essa é a última vez que entro aqui”. E me fez chorar.

Uma vez o Caio Pompeu de Toledo também me procurou para dizer de sua tristeza de não poder ter-me como colega, ele que havia acabado de se eleger vereador. Servir o povo, sem se servir do povo, é uma riqueza que a gente leva pelos poucos dias de uma existência tão curta.

Se fosse vereador hoje, qual projeto proporia?

Sempre pensei que a cidade deveria ter um ordenamento de crescimento, previsto e organizado. O colosso sem limites de altura e de apartamentos de cada prédio construído desgraçou a cidade. Não precisa ser urbanista para notar. O índice de aproveitamento está estourado. Hoje é preciso um farol na saída de cada prédio. Meu projeto seria nessa área.

Além de tantas situações pesadas, houve algum fato curioso ou engraçado?

O Rubens do Amaral (ex-vereador Estanislau Rubens do Amaral) não dava um aparte, porque os discursos dele eram lidos com rapidez. Quando alguém pedia, ele dizia “agora não, que estou embalado”.

Uma vez fui chamado por uma funcionária, a Joaninha, porque tinha acontecido um fato grave na sala do PST. Subi e ela havia sido furtada, o salário todo. Revistaram todo mundo dentro do gabinete. Mas o autor (de acordo com a desconfiança da vítima) havia saído, era um vereador cleptomaníaco. Outro vereador já havia falado para ele: “Você já levou a caneta, fique com a tampa”. Olha a podridão do Plenário…

Apanhava muito da imprensa?

Uma vez o jornal A Gazeta publicou uma notícia que para mim era uma punhalada pelas costas, por ser mentira, e pela frente, porque era uma prova de que alguém não aceitava minha linha séria. Eu defendia a seleção por concurso público, e não o nepotismo. O jornal publicou que eu criticava as nomeações sem concurso, mas recomendava (para cargos) os meus protegidos. Não falaram quem eram os protegidos. Fui ao diretor da Gazeta e disse: “Esse jornal jamais vai emporcalhar a mesa da minha casa”. E saiu o desmentido.

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