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Luta de foice, martelo e palavras

Impedido de assumir como vereador por ser comunista, Antonio Donoso Vidal foi preso e torturado por defender os direitos de mulheres, crianças e operários

Gisele Machadogisele@saopaulo.sp.leg.br

Publicada originalmente em ago/2014 – edição nº 9

Ainda com marcas da adolescência no rosto, o policial Antonio Donoso Vidal andava pelas ruas da São Paulo em 1933 quando se deparou com uma propaganda do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em defesa dos direitos das mulheres e das crianças. O apelo foi irresistível para o jovem, inconformado com o sofrimento da mãe, Joana Mechuca Barrocal, uma imigrante espanhola que trabalhava em uma fábrica por mais de 12 horas ao dia e ainda cuidava de nove filhos.

Naquele mesmo dia filiou-se ao Partidão, como o PCB era conhecido. Passou a integrar a cúpula e defendeu a sigla até o final da vida, quando já se considerava “meio homem”, desgastado pela série de torturas sofridas durante dois regimes ditatoriais, que lhe destruíram os dentes do lado direito. Um coágulo no cérebro, que o levou à precoce aposentadoria por invalidez, Donoso acreditava ter adquirido em 1937, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. Naquele ano, escapou por pouco de ter o crânio esmagado a coronhadas no presídio político Maria Zélia, onde 24 companheiros foram mortos.

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Santinho usado nas eleições de 1947. Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

As causas feminina e operária, que levaram Donoso ao PCB, permearam toda sua vida política. Enquanto morou na Rua Caetano Pinto, reduto de imigrantes no Brás, era especialmente querido pelas mulheres. “Meu pai as defendia sempre e, por isso, toda vez que os policiais iam até lá para prendê-lo, elas viravam até o carro da polícia e o escondiam dentro do forno a lenha”, conta Sonia Olga Coletti Donoso de Barros, filha do comunista.

Antes de integrar o Partidão, mentiu a idade para ser aceito na Força Pública do Estado de São Paulo (a Polícia Militar da época), aos 16 anos. Rapidamente tornou-se cabo, patente superior à do pai, Francisco Donoso Vidal, um soldado raso. Depois disso, na primeira vez que viu Francisco bater na mãe, ameaçou prendê-lo.

A frequente violência contra a “madre”, que nunca mais se repetiria, explica parte da fúria com que Donoso a defendia. Certa vez, um jornalista aposentado de O Estado de S.Paulo encontrou Sonia na rua e a reconheceu: “Assisti a seu pai arrebentar uma delegacia inteira porque xingaram sua avó”. Esse era um dos poucos assuntos capazes de tirar a calma do comunista.

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Donoso usou os conhecimentos militares também em prol da militância, ao integrar o Comitê Regional Militar do partido comunista. Além disso, participou como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932. “Ele entrou na Força Pública para defender a pátria, a comunidade e os ideais dele, que surgiram por conta (das dificuldades) da mãe. Ele não se via como um pau mandado do governo”, explica o advogado Renato de Barros, o neto com quem Donoso mais conviveu.

“FOI O POVÃO QUE FEZ”

Chefe do Comitê Popular do Brás do PCB, Donoso foi o candidato a vereador dos imigrantes do bairro, em 1947. “Foi bonito”, diz Sonia sobre a campanha do pai. A advogada conta que os moradores que viviam na mesma rua em que a família, a Caetano Pinto, montaram cada detalhe da divulgação. “Foi o povão mesmo que fez, inclusive o caminhãozinho da propaganda política”. Donoso foi muito bem votado para a época, com 4.198 votos. No mesmo ano, Jânio Quadros chegou à Câmara Municipal de São Paulo (CMSP) com apenas 1.707 votos.

Com o apelido de “Danoso”, o comunista era descrito pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) como uma figura antiga e de “projeção na direção do PCB em São Paulo”. Era ele quem abria vários dos discursos de Luís Carlos Prestes, líder do Partidão, que mantinha um estreito contato com sua família. “Eu ficava no colo do Prestes e, quando ele falava com meu pai, eu o imitava. Meu pai dizia que era para pôr esparadrapo na minha boca, até que um dia meu irmão colocou”, lembra Sonia, cujo segundo nome homenageia a militante Olga Benário, primeira esposa de Prestes.

Donoso foi um dos 15 vereadores eleitos em 1947 e impedidos de assumir, acusados de serem comunistas. Naquele ano, 33 candidatos foram identificados como “populares” e monitorados pela polícia política. Como o PCB havia sido cassado, seus filiados concorreram pelo Partido Social Trabalhista (PST), mas em 31 de dezembro o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considerou inválidos os registros na sigla feitos no Estado de São Paulo.

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Alguns dos seus trabalhos dentro e fora do partido
Fotos: acervo pessoal

O cerco aos candidatos comunistas já havia se fechado antes das eleições de 9 de novembro de 1947. Na reta final da campanha, no dia 7, Donoso foi preso por portar armas proibidas, segundo prontuário da Delegacia de Ordem Social. “Ele nunca usou arma”, afirma o neto. “Meu avô dizia que o intelectual resolve as coisas com palavras, na diplomacia, e não pela força”, relembra Renato de Barros.

No dia 1º de janeiro de 1948, Donoso e outros cem companheiros se reuniram em frente ao prédio da Prefeitura, onde os 45 vereadores eleitos seriam empossados. Policiais infiltrados registraram toda a movimentação do grupo, para impedir que os cassados entrassem no recinto.

Daquela data em diante, o cerco policial seria uma constante na vida de Donoso, descrito pela polícia como chefe da “tropa de choque” e elemento de evidência na agitação promovida pelo PCB. “Na ditadura militar, ficava uma viatura do Dops na frente de casa. Depois a da Polícia Federal, até 1970 e pouco”, conta Sonia.

HERANÇA MALVISTA

Tanto quanto a vigilância, continuava intensa a militância de Donoso. Em 1948, chefiava um movimento operário metalúrgico em nove fábricas. Uma anotação da polícia em 1953 mostra que, no Comitê Popular da Lapa, o “famigerado agitador comunista” articulava o retorno do PCB e incitava greves operárias. Em 1959, prestava assistência ao movimento grevista de aeroviários. Além disso, por mais de uma década foi agente de publicidade e gerente comercial do jornal Notícias de Hoje, pertencente ao partido, e diretor da Gráfica Hoje. “Para manter o jornal, ele arrecadava dinheiro com artistas como Mário Lago”, revela a filha.

A filha e o neto em frente à placa que registra Donoso como ex-vereador
Foto: Mozart Gomes/CMSP

A filha e o neto em frente à placa que registra Donoso como ex-vereador
Foto: Mozart Gomes/CMSP

O diploma que Donoso recebeu antes da cassação

O diploma recebido antes da cassação
Foto: acervo pessoal

Com tantos afazeres, sobrou pouco tempo para os estudos. “Meu avô fez pós-graduação na prisão, no sentido de aprender mesmo, com o topo da intelectualidade”, conta Renato. De 1936 a 1953, a atividade política de Donoso havia lhe rendido cinco prisões, somente entre as registradas pelo Dops. A filha Sonia, nascida em 1949, lembra que ele “vivia preso”. Quando era enquadrado, ela era levada à casa de outros militantes para evitar que fosse violentada pelos policiais. Ida, com quem Donoso se casou em 1944, ficava em casa com o filho mais velho, Carlos Stalin, e o caçula Vlademir Diógenes – cujos nomes homenageiam Josef Stalin e Vladimir Lenin, líderes soviéticos.

Em 1961, Donoso deixou a cúpula do PCB, segundo informações da família. Mesmo assim seus filhos continuaram sofrendo devido às suas escolhas. Nos anos 70, Sonia era uma novata no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo, quando recebeu ameaça do professor de Sociologia: “Eu sei muito bem quem é o seu pai, o que ele faz, e você nunca vai passar na minha matéria”. Acusou-a, na frente dos demais alunos, de integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização de luta armada contra o regime militar que a jovem nem conhecia. Sem contar ao pai sobre a violência sofrida, desistiu do curso. Pouco depois, já com o sobrenome do marido, entrou na faculdade de Direito na Universidade de São Paulo (USP) e não teve mais problemas.

O irmão mais velho de Sonia, nascido Carlos Stalin Coletti Donoso Vidal, aos 18 anos livrou-se dos nomes mais problemáticos, Stalin e Donoso, pensando em ter uma vida menos conturbada. Fez carreira e virou um executivo bem-sucedido, sem que o pai jamais questionasse suas escolhas. Desprovido de clichês anti-imperialistas, Donoso permitiu que o primogênito levasse Sonia para um mês de estudos nos Estados Unidos em 1968: “É bom mesmo, você é muito provinciana”. Ensinava a filha a nunca se sentir inferiorizada perante um homem, a tomar sozinha as decisões sobre sua vida e seu corpo. “Seu casamento não dá certo? Não tem problema. Você casa uma, cinco, sete vezes. Quantas quiser para ser feliz. Você é dona da sua vida”, dizia.

Carinhoso com os três filhos, Donoso não se lamentava pelos rumos e ideais políticos: “Só me arrependo de ter casado e arrastado vocês para essa vida”, costumava dizer aos familiares.

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Fotos: acervo pessoal

JUSTIÇA TARDIA

No dia 9 de maio de 2014, a CMSP restituiu simbolicamente o mandato de vereador de Antonio Donoso Vidal. A família se diz satisfeita com a homenagem, mas fala em ir “mais fundo”. Renato de Barros e Sonia buscam na Justiça a reintegração de Donoso à Força Pública em seu último cargo, com as respectivas indenizações.

Oficialmente, ele foi expulso da polícia em janeiro de 1937 por “incapacidade moral”. Porém, no fim de 1936 ele havia sido levado ao presídio Maria Zélia por confessar sua militância no PCB e as atividades de agitação e propaganda feitas no quartel, sob o pseudônimo de Volga. Chegou a sargento, mas sua documentação militar foi toda destruída pelo governo, restando somente o cartão de alistamento como cabo.

Até o momento, a passagem de Donoso pela polícia foi eternizada com a preservação de seus restos mortais no Obelisco Mausoléu, no Parque Ibirapuera, onde também estão os corpos de outros ex-combatentes da Revolução de 1932.

Os familiares ainda querem o ressarcimento do salário e dos benefícios não entregues devido à cassação do mandato de vereador. De acordo com Renato, “isso seria o governo brasileiro devolver a meu
avô a dignidade completa”.

MASSACRE DO MARIA ZÉLIA 

Tentativa de fuga quase põe fim à vida de Donoso

Em 1936, quando o País era presidido por Getúlio Vargas, ocorreu a primeira das várias prisões políticas do vereador cassado Antonio Donoso Vidal. A quatro dias do Natal, a Delegacia de Ordem Política o deteve e o levou ao presídio Maria Zélia, na zona leste de São Paulo, onde ficou quatro meses encarcerado e chegou bem perto da morte.

Sob a acusação de ser comunista, Donoso esteve preso com outros companheiros, alguns deles intelectuais como o historiador e filósofo Caio Prado Junior, então presidente da Aliança Nacional Libertadora (ANL) de São Paulo, e o jornalista Fúlvio Abramo, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Centro de Estudos do Movimento Operário Mário Pedrosa (Cemap).

A concentração de gente tão gabaritada transformou a prisão na “Universidade Popular Maria Zélia”. Após o almoço e o jantar, cerca de dez detentos davam aulas aos demais sobre sindicalismo, história do movimento comunista, teoria e economia política, antropologia e inglês, entre outras disciplinas. Donoso, que havia sido treinador físico na Força Pública, dava aula de educação física. O esforço coletivo unia lados conflitantes da luta comunista e ampliava a consciência revolucionária do grupo.

Se a união entre os presos aumentava, também crescia a insatisfação com o autoritarismo e os métodos “eventualmente brutais” da direção do presídio. A falta de perspectiva de libertação para alguns presos, que sequer tinham culpa, “servia de fermento ao desejo de fuga”, dizem os historiadores Dainis Karepovs e Régis Leme no artigo Maria Zélia, um presídio político na época de Vargas, publicado em 1985 nos Cadernos Cemap. “A comida era péssima, eles estavam enfraquecidos”, conta Sonia Olga de Barros, filha de Donoso, lembrando-se dos relatos do pai.

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Identificação de Donoso
Ficha de Donoso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops)
Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Na madrugada de 21 para 22 de abril de 1937, uma tentativa de fuga de 26 presos serviu de pretexto para uma chacina. O artigo do Cemap, que se baseia no depoimento de ex-presos e em publicações da época, conta que houve espancamento e fuzilamento de detentos já rendidos, “uma orgia de sangue”. Antonio Donoso Vidal, assim como os demais componentes do grupo trucidado, “ali caíram, enfileirados, à mercê dos ‘mantenedores da ordem’”.“A rajada foi disparada a sete metros de distância, pelas costas”, descreveu Donoso, segundo o artigo. Sua mãe, a imigrante espanhola Joana Mechuca Barrocal, chegou a receber as roupas do filho com marcas de tiro, como se ele estivesse morto. “Minha avó foi falar com os deputados de São Paulo, jogou para eles a roupa ensanguentada, queria saber onde estava o ‘hijo’ dela”, conta Sonia Olga.

Na verdade, Donoso e o companheiro Oscar Reis escaparam por pouco de ter o crânio esmagado a coronhadas pelo corpulento sargento Gregório Kovalenko. Quando o preso recebia os primeiros golpes, as ambulâncias entraram para levar os sobreviventes ao hospital da Força Pública. Os outros detentos derrubados pelos disparos não tiveram a mesma sorte. Em uma carta guardada pela filha, o comunista culpa a violência sofrida no “massacre político” pela sua aposentadoria, por invalidez, aos 53 anos.

Depois do episódio, Donoso e seus companheiros passaram a visitar o cemitério todo dia 21 de abril, para homenagear os colegas mortos. “Ser comunista, naquela época, era um estado de espírito. Eles queriam mudar o mundo”, diz Sonia.

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