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Com iniciativas não convencionais e projetos de estímulo, São Paulo se destaca em um dos setores que mais crescem no País, a economia criativa
Publicada em 29/10/2018

Rodrigo Garciarodrigogarcia@saopaulo.sp.leg.br
Colaborou Renata Oliveirarenata.olliver@live.com

Cerveja para cachorro (sem álcool, para não prejudicar a saúde) e petiscos para gatos são alguns produtos fabricados e comercializados pela Padaria Pet, uma loja no Jardim Paulistano, bairro nobre de São Paulo, que também oferece roupas, acessórios, doces, bolos e até um espaço para os bichos de estimação comemorarem o aniversário. O objetivo é humanizar os animais: “Cada vez mais os pets são membros da família”, diz Arquelau So, um dos três sócios da empresa.

A ideia de uma padaria para cães surgiu em 2011, quando os dois sócios-fundadores, os gêmeos Ricardo e Rodrigo Chen, estavam em um café em São Francisco, nos Estados Unidos, e viram alguns doces num balcão. “Por favor, gostaríamos de um desses cupcakes”, pediram ao atendente. E a surpreendente resposta: “Senhores, isso não é para pessoas, é para cachorros”. Então houve o estalo sobre o potencial do mundo pet e os irmãos começaram a pesquisar como trazer o negócio para o Brasil.

A primeira loja foi inaugurada em 2015, e hoje a rede tem cinco unidades: três em São Paulo, uma em Belo Horizonte (MG) e outra em Vitória (ES).  O plano dos sócios é ter 15 lojas, próprias e franquias, até 2019. So está otimista: “O mercado dos pets é ávido por novidades e inovações, estamos trabalhando nisso”.

A poucos quilômetros da padaria, na região central, uma antiga estação da empresa de energia Light foi transformada no centro cultural Red Bull Station, onde pessoas criativas podem desenvolver ideias artísticas e/ou tecnológicas em estúdios, ateliês, laboratórios e locais pra palestras, exposições e festas.

Foi nesse prédio, construído nos anos 20 do século passado, que o empresário Maurício Muñoz decidiu abrir uma cafeteria do Projeto Urbano de Reconexão com o Alimento (Pura), onde são servidos refeições, lanches e bebidas. Influenciado pelo período que morou na Amazônia, quis aproveitar ao máximo os alimentos. “Vi como as pessoas conseguiam se sustentar com um número limitado de insumos; assim, uma nova gastronomia nasceu”, afirma Muñoz, gerente do coletivo. “O principal foco do Pura é fazer um link mais direto entre o produto e o consumidor final”, completa. Pelo sucesso de público e crítica, tem conseguido.

A cafeteria tem ainda um laboratório de desenvolvimento e oferece oficinas sobre fermentação, nas quais ensina a fazer kombucha (chá) e molho de mostarda, por exemplo. “Procuramos utilizar produtos brasileiros, a nossa flora tem muitos ingredientes interessantes”, ressalta o chefe da cozinha, Danilo Sakamoto Peixoto.

A Padaria Pet e o Coletivo Pura são apenas dois dos muitos exemplos de economia criativa, um dos setores mais modernos do processo econômico, que engloba desde gastronomia até biotecnologia, passando por moda, games e marcenaria, entre outras áreas. De acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em 2015, último ano com dados disponíveis, a economia criativa representou 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, o equivalente a R$ 155,6 bilhões, e foi responsável por 851,2 mil empregos formais.

DIFERENCIAL DO SÉCULO

Mas o que é economia criativa? Uma explicação diz que é a criação, produção e distribuição de bens e serviços que usam criatividade e capital intelectual como matéria-prima. Entretanto, uma das coordenadoras do curso Economia Criativa e Cidades Criativas, da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ana Carla Fonseca ressalta que não existe só uma definição sobre o tema. Segundo a professora, a economia criativa abrange os bens e serviços que usam a criatividade para se diferenciar e agregar valor (veja entrevista abaixo). “O talento criativo se tornou o ativo econômico mais diferencial do século”, resume.

No Plano Diretor Estratégico (PDE), lei que orienta o desenvolvimento e o crescimento da cidade até 2030, aprovado em 2014 pela Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), a importância da economia criativa ficou evidente com a implantação do Polo de Economia Criativa (PEC), território destinado ao fomento e desenvolvimento de atividades econômicas que compõem a economia criativa, buscando valorizar a diversidade cultural e os talentos individuais e coletivos.

O PEC pretende, entre outros objetivos, incentivar a diversidade cultural, estimular as empresas a valorizar seus ativos criativos e apoiar os coletivos de arte e pequenos produtores. Para alcançar essas metas, o PDE determina isenção fiscal, menos burocracia, linhas de financiamento, desenvolvimento de produtos, apoio jurídico e ruas com comércio e serviços 24 horas. Esses polos também se propõem a estimular o setor empresarial a valorizar seus ativos criativos e inovadores, com a finalidade de promover a competitividade de produtos, bens e serviços. Atividades relacionadas ao patrimônio cultural, às artes, à mídia e às criações funcionais (arquitetura, moda e jogos eletrônicos, por exemplo) devem recebem ajudar do poder público, afirma o PDE.

O primeiro PEC criado foi o Distrito Criativo Sé/República, na região central, envolvendo diversas ruas desses bairros (veja imagem abaixo). Os produtores que atuam no polo vão receber assistência técnica para orientação sobre elaboração de projetos, acesso a linhas de financiamento, desenvolvimento de produtos e apoio jurídico.

SAMBA NO PÉ E NO BOLSO

Para incentivar os Polos de Economia Criativa, a CMSP aprovou, em primeira votação, o projeto 65/2015, apresentado pela vereadora licenciada Aline Cardoso (PSDB) e pelos ex-vereadores Andrea Matarazzo e Nelo Rodolfo. A justificativa da proposta afirma que existe “uma carência de instrumentos para promover a economia criativa” e que “é inegável a necessidade de o poder público estabelecer e criar políticas públicas de incentivo e fomento” a esse setor econômico.

Pelo projeto, a Prefeitura poderá permitir o uso de bens públicos para a realização de residências artísticas, incubadoras e aceleradoras, infraestrutura compartilhada (coworking), plataformas de difusão das atividades da economia criativa, mostras, festivais, exposições, shows e feiras, exibições cinematográficas, teatrais, musicais, de dança e circo e espaços de educação, formação, cursos, debates e seminários.

Segundo os autores da proposta, há outras cidades brasileiras que incentivam a economia criativa com fomentos municipais à inovação e ao desenvolvimento tecnológicos, como o Parque Tecnológico de Sorocaba e o Porto Digital do Recife.

A professora Ana Carla Fonseca gosta da ideia do PEC. “São Paulo realmente precisava de um olhar mais cuidadoso”, afirma. Mas, segundo ela, é preciso definir bem quais serão os empreendimentos criativos que se pretende estimular, como será relação entre as empresas e o espaço público, como deve ser o uso misto de uma área para trabalho, lazer, estudo e residência para que haja uma cidade 24 horas. “Há toda uma série de delicadezas estratégicas que tem de ser tomadas para que a lei surta bons resultados”, conclui.

Além das propostas de incentivos aos Polos de Economia Criativa, os vereadores têm aprovado leis de estímulos a atividades que fazem parte desse setor econômico. Uma delas é a 16.874/2018, que nasceu de projeto apresentado pelos vereadores Alfredinho (PT), Fábio Riva (PSDB) e Milton Leite (DEM). A lei tem o objetivo de coordenar e desenvolver atividades que valorizem as comunidades de samba, elevando o nível cultural, profissional, social e econômico, bem como desenvolvê-las e promovê-las como instrumento cultural, de trabalho e de empreendedorismo.

Lei proposta pelos vereadores Alfredinho, Fábio Riva e Milton Leite estimula as comunidades de samba como empreendimentos econômicos – Foto: Romerito Pontes

De acordo com os autores da iniciativa, as comunidades de samba desenvolvem um importante trabalho cultural e social, pois, além de levar diversão aos bairros, têm ações comunitárias, como arrecadação de alimentos e prestação de serviços. “Juntas, podem desenvolver estratégias para produzir no universo da economia criativa e do cooperativismo, estimulando o empreendedorismo, e ter acesso ao microcrédito”, afirma à Apartes Milton Leite, presidente da CMSP. “Isso dá vida à cultura local e ajuda a movimentar ainda mais a economia e o trabalho social que existem nessas comunidades”, completa.

Outra ideia já aprovada e sancionada pelo prefeito é a lei 16.573/2016, que criou o Programa do Artesanato Paulistano. Segundo Alfredinho, autor do projeto que a originou, a maioria dos artesãos não tem condições de montar seu próprio estabelecimento e depende de concessão do poder público para vender nas calçadas as peças produzidas. “É preciso ter garantia de acesso à informação e de formação do artesão, que muitas vezes pela labuta do dia a dia não possui indicativos de como fazer”, argumenta Alfredinho.

O programa promoverá medidas para melhorar a competitividade do artesanato e a capacidade empreendedora, para ampliar sua inserção nos mercados nacionais e internacionais. Além disso, busca identificar espaços mercadológicos adequados à divulgação e à comercialização dos produtos artesanais, promover participação em feiras, mostras e eventos nacionais e internacionais, bem como criar espaços públicos para facilitar a comercialização.

LABORATÓRIOS DE CRIAÇÃO

Em São Paulo, tem muita gente se movimentando para estimular a economia criativa. Além da Red Bull Station, há outros locais destinados a impulsionar a inovação tecnológica e a criatividade. Nos Campos Elíseos (região central), num palácio do século 19 que já foi sede do Poder Executivo estadual, funciona desde abril o Centro Nacional de Referência em Empreendedorismo, Tecnologia e Economia Criativa, administrado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de São Paulo. Ali empreendedores se reúnem para analisar projetos de tecnologia, inovação e criatividade.

O Serviço Social do Comércio (Sesc) possui 12 unidades em diversos bairros, como Bom Retiro, Itaquera e Bela Vista, com um espaço destinado a tecnologias, onde há  oficinas, cursos, exposições, instalações, espetáculos, performances e palestras envolvendo as mais diversas práticas tecnológicas, com o objetivo de desenvolver as linguagens artísticas e a criação.

Por sua vez, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e o Instituto de Tecnologia Social (ITS Brasil) criaram uma rede de laboratórios públicos, o Fab Lab Livre SP, à disposição dos paulistanos em 12 bairros (Limão, Paraíso e Heliópolis, por exemplo), equipados com  impressoras 3D, computadores com software de desenho digital, equipamentos de eletrônica e robótica, e ferramentas de marcenaria e mecânica. Nesses espaços de criatividade, aprendizado e inovação, é possível fazer cursos, projetar e  produzir diversos tipos de objetos em diferentes escalas.

De 5 a 11 de novembro, São Paulo receberá uma feira internacional de economia criativa, a primeira edição do Mercado das Indústrias Criativas do Brasil (MicBR), que envolve dez setores: artes cênicas (circo, dança e teatro), audiovisual, animação e jogos eletrônicos, design, música, museus e patrimônio, artes visuais, moda, editorial e gastronomia.

Segundo o Ministério da Cultura e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), organizadores do evento, o objetivo é fortalecer a internacionalização da produção cultural brasileira e incentivar o intercâmbio entre os países, em especial os da América do Sul. Os organizadores preveem que cerca de 500 empresas e aproximadamente 100 compradores internacionais vão participar do MicBR.

“A beleza da economia criativa é resgatar o ser humano para o centro da economia”

Foto: Gute Garbelotto/CMSP

ENTREVISTA | Ana Carla Fonseca


“Paulistaníssima”, como ela própria diz, a professora Ana Carla Fonseca é uma entusiasta da economia criativa. Graduada em Economia e Educação Pública, com mestrado em Administração e doutorado em Urbanismo, foi a primeira pesquisadora a escrever, em 2012, uma tese sobre a questão no Brasil: Cidades criativas: análise de um conceito em formação e da pertinência de sua aplicação à cidade de São Paulo. Atualmente, dá aulas sobre a questão em três países (Brasil, Argentina e Espanha) e coordena um curso de pós-graduação sobre o tema na Fundação Getulio Vargas (FGV).

O que é economia criativa?

É o paradigma econômico do momento. Toda fase econômica é catalisada por uma revolução tecnológica. Foi assim na revolução agrícola, na industrial e é com a economia criativa. A revolução atual são as tecnologias digitais, que mudaram nossas vidas. Do ponto de vista da economia, ela fez com que as informações circulassem numa velocidade incrível, com que outros ativos econômicos, como o capital e a tecnologia, também circulassem em um espaço planetário com uma facilidade impressionante. Dentre os ativos econômicos, o único que não é copiável e que não circula fisicamente em massa é o talento criativo. Você pode copiar o que o talento criativo faz: o livro, a pesquisa, o que for… Mas o talento criativo, sua capacidade criativa, não é copiado.

Quais são as características dessa economia?

Vender criatividade deixa de ser um insumo qualquer e passa a ser um insumo básico da diferenciação de bens e serviços. É o que tem de mais arrojado. Uma beleza da economia criativa é resgatar o ser humano para o centro da economia.  Na revolução industrial, tudo o que não havia era o ser humano no centro, ele era um insumo qualquer. A gente tinha no centro a produção, o maquinário, a tecnologia industrial. Quando você tem essa revolução catalisada pelas tecnologias digitais, os artigos deixam de ser tão competitivos porque passam a ser acessíveis para muito mais gente. Você começa a ter o diferencial do talento criativo, o ser humano volta a ocupar o centro da pauta econômica.

A expansão dessa economia exige novas habilidades profissionais?

Para que se consiga ter trabalhos criativos, a gente precisa fazer com que as pessoas sejam mais bem preparadas, com raciocínio crítico, inteligência emocional, análise sistêmica, raciocínio matemático, gestão de recursos, aprendizado ativo e outras habilidades. Enfim, vida em sociedade. Não dá para imaginar que o cidadão não criativo seja um trabalhador criativo e vice-versa. Precisamos fazer com que a cidade seja um ambiente mais propício à criatividade. As pessoas devem ter estimulada sua capacidade criativa, e não ser condenadas a desenvolver trabalhos que talvez sejam do século 18.

Quais as características de uma cidade criativa?

Três eixos direcionadores: inovação, conexões e cultura. Inovação, no sentido amplo, desde inovações sociais até inovação de base tecnológica de ponta. Conexões, ou seja, a capacidade de agir com um sistema concatenado, com mais comunicação entre os bairros, as pessoas circulando por diferentes lugares da cidade, público e privado trabalharem juntos com a sociedade civil. E a cultura de uma forma ampla. Não só as artes institucionais. Mas também as da rua, as artes informais.

São Paulo é criativa?

São Paulo tem o espírito da cidade. Isso faz com que uma pessoa chegue aqui e perceba que é uma cidade diferente de outras. É o que os romanos chamavam de genius loci (espírito do lugar), porque a cidade tinha um espírito protetor e era isso que dava a característica própria. Então São Paulo, se a gente analisar os três eixos (inovação, conexões e cultura), sem dúvida tem uma cultura muito própria, multifacetada, riquíssima. Tem uma cultura da periferia, ainda desconhecida da maioria dos paulistanos porque circula muito pouco, por uma série de questões de mobilidade, mais é muito pujante. Às vezes a gente entra em parafuso porque tem coisa demais para fazer e não sabe o que priorizar. Inovações também, muitas por necessidade, outras por vocação.

O que falta para se aproveitar mais essa característica?

São Paulo tem uma carência enorme de conexões, muito por conta da dimensão e das disparidades, não só sociais, mas entre bairros. A gente fica cada vez mais vivendo em ilhas. A cidade deixa de ser uma cidade e passa a ser uma esquizofrenia. A gente vai vivendo em uma sociedade que tem uma lógica de que a cidade é pequena porque volta e meia cruza com alguém. Mas isso porque se transita sempre no mesmo pedacinho. Para a cidade se beneficiar dessa criatividade, a gente precisa fazer com que esses lugares se conectem melhor.

Como?

Conectar melhor não significa só ter uma política pública estruturada, mas também uma série de ações que levem as pessoas a visitarem áreas que não conheciam. Um exemplo é a Virada Cultural. Um benefício que vejo no evento é que talvez seja o único lugar em que dois jovens, um estudante da escola privada mais cara e outro da escola pública da periferia, estejam no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Então você começa a ter essas conexões de públicos que antes não se cruzavam. Essa é uma questão que São Paulo tem que trabalhar.

A cidade aproveita bem a criatividade dos moradores?

Poderia aproveitar muito mais. Primeiro, se houvesse esse olhar muito mais carinhoso, essa predisposição de ir a locais aos quais geralmente não se vai. Tenho um colega de fora que me deu uma lição. Toda semana pegava o metrô e saía em uma estação em que nunca esteve. Ele queria ver o que tinha na cidade. De todas as estações que mencionava, eu tinha ido uma ou duas vezes, se tanto… No dia a dia a gente vai deixando de viver a cidade.

O que o poder público pode fazer nesse quesito?

Primeiro, ouvir mais os cidadãos. Não só ouvir, mas fazer alguma coisa a respeito e dar o retorno. Ser mais interativo e não só receptivo. Isso está melhorando, mas não na velocidade que a gente gostaria. Ter estímulos, desde fazer com que determinados setores criativos sejam reconhecidos como peculiares e que merecem um olhar especial. Às vezes nem aporte de dinheiro, mas de facilidade de regulamentação, regimes tributários específicos. Criar um ambiente propício à realização de negócios.

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